sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Genocídio

A palavra é forte. Mais do que violência, ela traduz um desequilíbrio de forças, uma sensação de abuso de poder, de covardia. O grau de reprovação que desperta é ainda maior do que o de uma situação de guerra. Talvez por isso eu tenha ficado tão incomodada com o debate que mais uma vez assolou a imprensa, referente ao genocídio praticado pelos turcos contra os armênios em 1915.

Primeiro li uma pequena nota em que se dizia, com outras e poucas palavras, que o governo turco ameaçava retirar seu apoio aos EUA no Iraque em represália à eventual aprovação de resolução, pelo parlamento americano, declarando o genocídio. Detalhe: o governo turco nega o massacre. Portanto, não seria o caso de ele reprovar a atitude americana utilizando dados, informações, argumentos que demonstrassem que o genocídio, de fato, não aconteceu? Não entendi essa lógica torta: para impedir que se declare caracterizado o genocídio, promete-se “vingança”.

Muitas outras matérias sobre o tema foram publicadas. Discute-se o futuro da parceria entre EUA e Turquia, os reflexos desse incidente na oscilação do preço do petróleo, a situação dos EUA no Iraque com o eventual fim do apoio logístico proporcionado pela Turquia. Tudo, menos o massacre. Ninguém parece interessado em discutir o fato em si – o genocídio.

À primeira vista, a impressão que se tem é de que a tese contrária à caracterização do massacre como genocídio não é “defensável”. Outros países, antes dos EUA, já declararam seu entendimento sobre o assunto, afirmando a tese do genocídio. Mas, em se tratando de política, tudo é possível. Pela rápida e simples leitura das notícias, não dá para saber quais são os interesses realmente envolvidos nessa discussão, ou por que o tema tem alcançado tanto destaque agora, passados mais de 90 anos do fato. Enfim, não saberia dizer quais são as implicações desse imbróglio no cenário internacional.

Para piorar ainda mais a situação, li hoje a seguinte declaração do presidente Bush, com direito a aspas e tudo, em resposta à aprovação, pelo parlamento turco, de uma eventual operação militar em território iraquiano: “Queremos deixar claro à Turquia que, em nossa opinião, não é de seu interesse enviar militares para o Iraque” (Jornal Valor Econômico, de 18 de outubro de 2007, pág. A14).

Não entendi. Por que os EUA vêm a público informar à Turquia o que é, “na sua opinião”, do interesse da Turquia? Não seria ela própria, a Turquia, que estaria em condição de avaliar o que é ou não do seu interesse? Enfim, como no cenário internacional picuinha se chama incidente diplomático, acho que esse poderia ser mais um de uma longa lista.

Turquia, EUA, Iraque... São esses os protagonistas das histórias que têm circulado ultimamente. Mas, e os armênios? Não teriam eles um papel relevante nessa história? Não deveriam se manifestar? Onde estão os armênios? Gostaria de saber por que ninguém fala deles.

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