segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Alguns poemas de “1”, de Gonçalo M. Tavares

A Prova na poesia

Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.

(Pág. 83)


Vento

O mesmo que empurra o incêndio em direcção ao ser vivo frágil
que perdeu caminho e tempo de fuga,
empurra ainda o cheiro da amante para a casa do amado.
E não se trata de sinalizar o caminho umas vezes à bondade
outras à maldade,
a moral do vento é outra,
e está toda no modo como ele toca na água:
faz o que tem a fazer e parte.

(Pág. 116)


Pág. 197
Irreflectida nunca é a Primavera. A natureza inteira procede como o predador: escondida atrás de algo prepara-se para surgir na hora certa. A Primavera aterra como os aviões acidentados, mas o que resulta não é negro.

Pág. 205
Nem sempre os dias obedecem a fórmulas. Na cidade, com intervalo de meia hora, os melhores dedos contam diamantes e tocam nos seios da mulher que amam. Os ossos são múltiplos e, apesar de escondidos, tornam semelhantes entre si os cidadãos saudáveis. Mas o tráfico mais perseguido em certos edifícios públicos é o dos segredos. O homem rodopia atrás dos acontecimentos e é editado, como um livro, pelo trabalho que aceitou. Atirado és para o mundo pelas ordens a que obedeces.

Poemas extraídos de “1”, de Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil.

sábado, 31 de outubro de 2009

E chegou o Natal

Dei de cara com ele ontem, no Kinoplex. Uma árvore de Natal, grande e bonita, e muitas luzinhas. Não dava pra esperar até dezembro?

Depois reclamam que o tempo passa muito rápido...

O tempo não tem culpa da nossa ansiedade.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Marcelino Freire

Veja entrevista com Marcelino Freire, publicada no Cronópios, portal de literatura, no dia 18 de outubro:

http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4246

Esse texto faz parte de um projeto pessoal, que reuniará perfis e entrevistas com diversos autores de língua portuguesa e deverá se estender ao longo do próximo ano.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Rasif

Mais um livro de contos de Marcelino Freire. Temas, linguagem, estilo de Marcelino Freire. Ilustrações de Manu Maltez. Gosto especialmente da figura da capa: uma onda com cabeça de pássaro ou um pássaro feito da espuma do mar.

“Rasif, mar que arrebenta” parece apontar o fim de um ciclo. A evocação de Recife (palavra que vem do árabe “rasif”), a ideia de retorno à origem, uma espécie de acerto de contas com São Paulo. Vim, vi, venci?

Dor, miséria, desencontros, morte, preconceito, violência, humor, amor, incompreensão. Histórias à margem da história, à margem da metrópole moderna, rica, agitada. Um retrato do Brasil que não se deseja revelar, muito menos exibir num porta-retrato, na sua sala de visitas.

Textos curtos, enxutos, ágeis, ritmados. Rasif é uma boa opção para quem ainda não conhece o autor e o título mais recente publicado por ele (o livro é de 2008).

Segundo Marcelino, seu primeiro romance está a caminho. Vamos aguardar.

Ficha Técnica: “Rasif, mar que arrebenta”, Marcelino Freire, Editora Record.

BaléRalé

A capa é ótima: duas múmias abraçadas. Foram elas que inspiraram ‘Homo Erectus’, o conto de abertura. O homossexualismo é tema bastante presente no trabalho de Marcelino Freire, assim como o preconceito. Esse conto é uma ótima introdução.

Há no trabalho do autor um equilíbrio delicado entre humor e crítica social. E alguma coisa mais, que trai a vontade de Marcelino. Uma espécie de otimismo tímido, recolhido. Mais intenção do que crença. Como se ele quisesse dizer:apesar de tudo que vejo e ouço, eu acredito, eu quero acreditar...

Não deixe de assistir o vídeo disponível no site Antologia Digital (www.oinstituto.org.br/enter), organizado por Heloísa Buarque de Holanda.

Ficha Técnica: “BaléRalé”, Marcelino Freire, Ateliê Editorial.

Contos Negreiros

Com este livro de contos, Marcelino ganhou o prêmio Jabuti, em 2006. Na capa, o personagem recorrente em todo o livro: a figura do negro.

A rima forte no trabalho de Marcelino é humor e dor. E é com ela que ele constrói seus textos. Impressiona a lógica particular de cada um dos personagens. A nos lembrar o tempo todo que vivemos em universos individuais, únicos e próprios, embora tenhamos a mania de nos referir a realidade como se ela fosse algo dado, igual para todos, comum. Definitivamente, não é. Vivemos em universos paralelos.

Yamami é um bom exemplo. Uma história de amor. E também de pedofilia. Forte, comovente, dura. Bem ao estilo do autor. No final, fico sempre com a impressão de que o vilão da história sou eu.

Ah, antes que eu me esqueça, uma recomendação: leia Marcelino em voz alta. Faz toda a diferença. Se preferir, compre o audiolivro, gravado pelo autor e publicado pela editora Livro Falante.

Ficha Técnica: “Contos Negreiros”, Marcelino Freire, Editora Record.

Angu de Sangue

Antes de mais nada, um livro bonito. Os detalhes do projeto gráfico e as ilustrações de Jobalo encantam. Não sei se, tecnicamente, posso dizer que sejam ilustrações. Fotos, montagens. Não. Gosto mesmo é de chamar de ilustrações.

Se, em Eraodito, predomina o humor, aqui, quem ganha é a crítica. A fala afiada, dura, cortante.

Contos curtos, linguagem direta. Em todos eles, cabe ao próprio personagem narrar a sua história, recurso que Marcelino Freire seguirá explorando nos livros seguintes.

Entredentes, desesperados, conformados, resolutos, indiferentes, conscientes ou inconscientes. Cada personagem é dono de sua própria voz.
Marcelino associa o título do livro ao choque de sua chegada a São Paulo, vindo do Recife. O angu da terra natal transformado.

Entre meus favoritos, está o conto Muribeca, que abre o livro. Não deixe de ler.

Ficha Técnica: “Angu de Sangue”, Marcelino Freire, Ateliê Editorial