terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Poesias de Martha Medeiros

42.

se você for
exatamente como imagino
igualzinho aos meus sonhos
eu vou embora
detesto estraga prazeres


44.

quando dou pra ti
sou mulher

quando dou por mim
solidão


Técnica: "Poesia Reunida", de Martha Medeiros, L&PM Pocket: 1999

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Mongólia

O livro é ‘competente’. Bernardo Carvalho é um bom autor. Sofri um pouco no começo, até me acostumar com seu estilo, até entender a organização do texto.

Mas não sei quanto do autor está impresso nesse trabalho. E é engraçado dizer isso, pois esse é o primeiro livro dele que leio. Já li outros textos, entrevistas, artigos. Já o ouvi falar num evento aberto ao público. Nada mais que isso.

No entanto, apesar da minha ignorância – ou exatamente por causa dela – fiquei com essa sensação esquisita de que o autor optou por se revelar menos nesse livro. Como se o autor se poupasse, se afastasse para que a história fosse mais facilmente digerida.

Definitivamente, preciso ler mais. Pensei em “Nove Noites”, “Aberrações” ou “Os Bêbados e os Sonâmbulos”.

No final, restou a sensação de que fracassei nessa leitura. Não consegui entender o que move os personagens. Não consegui me deixar convencer por eles. Por suas buscas. Nem me transportar para a Mongólia. Ao contrário do que aconteceu em relação ao Tibet, lendo o livro de Xinran, “O Enterro Celestial”.

Ainda assim atravessei a noite para chegar ao fim da história. Tive um vislumbre, não uma revelação.

Ficha Técnica: “Mongólia”, de Bernardo Carvalho, Companhia das Letras.

Intolerância

Um homem e quatro mulheres. Num domingo de chuva. Dividem a mesa ao meu lado, no café de uma livraria. O tema da conversa: bichinhos de estimação. Eu adoraria não ouvir a conversa deles, mas, considerando a distância geográfica, isso é impossível.

Descobri que o filho de um deles tem uma galinha de estimação e que todos eles adoraram o tal do labrador-ator, chamado Marley. Tive a honra de ser relembrada das velhas máximas dos famigerados donos de animais domésticos: “é como um filho”, “faz companhia”. (Desde quando filhos fazem companhia aos pais?)

Também acompanhei o extraordinário desenvolvimento de um dos bichanos: “faz xixi no jornal”. Descobri que alguns hotéis oferecem até aulinha de natação e que o faxineiro do prédio de uma delas é pago para fazer companhia ao cachorrinho que fica em casa sozinho o dia todo.

(Nunca entendi como alguém pode dizer que gosta de animais e submeter o dito cujo a viver sozinho, na maior parte do tempo, trancafiado num apartamento.)

Ainda aprendi que “gato é bem mais fácil de cuidar do que cachorro, o problema é que é imprevisível”.

Continuava a chover. E eu sem guarda-chuva. Nem paciência.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Jerusalém

Este é o segundo livro que leio do Gonçalo Tavares. E, mais uma vez, me deparo com a loucura. Pelo visto, o autor é especialista no assunto.

As pessoas estão no centro da narrativa. São elas que impulsionam a história. Os fatos servem apenas como pano de fundo. Os fatos servem apenas para moldar as personagens, explicitá-las.

O texto é construído, medido, calculado. É cíclico também. De repente nos damos conta de que estamos de volta ao ponto de partida. E de novo. E mais uma vez.

Loucura e sanidade se confundem. Na verdade, a distinção entre ambas é que deixa de importar. O horror, do passado e do presente, perpassa a narrativa sem se importar com saúde ou doença,
normalidade ou demência.

O horror e o humano se fundem. Não há ciência o bastante. Não há justiça, nem clamor por justiça, nem tristeza ou lamento. Só uma espécie de balanço, de controle aleatório e casual, quase mecânico, que incide sobre a cidade como um raio.

Resta, sempre, a solidão.

Ficha Técnica: “Jerusalém”, de Gonçalo M. Tavares, Companhia das Letras.

Cal

O tom é familiar. Como se estivéssemos todos sentados numa sala, num fim de tarde, jogando conversar fora, contando histórias da infância. Velhos amigos que se reencontram. E as histórias se sucedem. Intercalam-se com lembranças. A família sempre presente.

A proximidade. O autor chama o leitor para si. Ou, talvez, não se trate da relação entre o autor e o leitor, mas sim do autor com ele mesmo. José Luís Peixoto parece não tem medo de se revelar. Algo pouco comum no ser social. E isso nos arrasta em direção ao seu universo.

Talvez seja isso o que me atrai ao texto, essa suposta exposição. Que parece natural, espontânea, não sofrida. Como se o autor dissesse “nada tenho a esconder”.

E as histórias da aldeia, de uma aldeia do passado, que não mais existe. Como se o autor já fosse um homem muito velho. Como se houvesse uma distância enorme entre ele e suas histórias. Como se não fossem histórias, mas reminiscências.

Mas essa ilusão de passado não perdura. De repente, estamos na aldeia. E a aldeia não tem idade, nem tempo ou lugar. Atemporal e perdida.

Histórias. Mais do que histórias, visões. O olhar do autor sobre a vida, a morte, a infância, o passado, o presente, o futuro.

Ficha Técnica: “Cal”, de José Luís Peixoto, Bertrand Editora.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Uma casa na escuridão / A Casa, A Escuridão

Ainda estou perdida. Não sei o que pensar. Pior, não sei o que sentir. Confusão, com certeza. Como se tivesse parado para tomar fôlego e já não soubesse mais que direção retomar.

Outra vez o universo atordoante de José Luís Peixoto. Aqui ainda mais distorcido do que em “Nenhum Olhar”. Um texto que se arrasta, que se movimenta num ritmo inusitado, ao sabor de uma música própria talvez, dando voltas. Mas nenhum desses movimentos é tomado por acaso.

Há uma melodia que se desenha. Como a do encantador de serpentes. Trágica e doce. Dura, afiada feito faca. Lâminas a cortar a carne de dóceis cordeiros. Violenta. Inexorável.

Seres mutilados. Aqui, ainda mais. Amores desencontrados e impossíveis. Mas, ainda assim, o amor é tudo que existe. O amor é solidão. Solidão é tudo que existe.

E morre-se devagar. A carne apodrece aos poucos e se desfaz, desaparece. Apodrece quando lhe falta o amor.

Mas o amor retorna ao final, trazendo a morte. A redenção. O amor. A morte. A redenção?

O amor é impossível. Hoje. Aqui. Mas ainda há uma esperança fugidia. Uma esperança que escapa. Um fio de esperança que perpassa o livro e as almas que ele encerra.

Talvez em outro lugar. Talvez em outro tempo. Talvez quando formos outros.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Feliz Ano Novo

Acho que estou perdendo a capacidade de celebrar. Quando era criança, vivia esperando a próxima data. O caranaval, meu aniversário, a páscoa. Então o tempo se arrastava. Depois vinha a festa junina do colégio e, finalmente, as férias de julho.

O dia das crianças demorava a chegar. Depois o final das aulas e nosso presente por ter passado de ano. E só então chegava o Natal, que era, em si mesmo, o grande acontecimento do ano.

Nos intervalos, eu ficava planejando o que iria fazer, o que iria ganhar, como seria a festa. Costumava atormentar minha irmã a noite, perguntando o que ela iria pedir de Natal, de aniversário, de dia da criança...

Agora as datas chegam e passam sem grandes expectativas ou alvoroço. Não vejo graça nisso. Quero voltar a comemorar. Feliz Ano Novo!