Acho que estou perdendo a capacidade de celebrar. Quando era criança, vivia esperando a próxima data. O caranaval, meu aniversário, a páscoa. Então o tempo se arrastava. Depois vinha a festa junina do colégio e, finalmente, as férias de julho.
O dia das crianças demorava a chegar. Depois o final das aulas e nosso presente por ter passado de ano. E só então chegava o Natal, que era, em si mesmo, o grande acontecimento do ano.
Nos intervalos, eu ficava planejando o que iria fazer, o que iria ganhar, como seria a festa. Costumava atormentar minha irmã a noite, perguntando o que ela iria pedir de Natal, de aniversário, de dia da criança...
Agora as datas chegam e passam sem grandes expectativas ou alvoroço. Não vejo graça nisso. Quero voltar a comemorar. Feliz Ano Novo!
domingo, 4 de janeiro de 2009
domingo, 28 de dezembro de 2008
O homem ou é tonto ou é mulher
Disparate. Espera-se uma coisa e encontra-se outra, diferente. No meio da loucura a lucidez. Ou será o contrário? Talvez isso não importe, afinal, lucidez e loucura andam sempre juntas.
Nesse monólogo, Gonçalo Tavares mistura obsessões, fúrias, amores e loucura. Tudo amarrado em poesia. Nos deixamos levar pelo desvario de um louco furioso e, de repente, somos surpreendidos por uma idéia, algo que desprende do texto, capaz de abalar o raciocínio mais lúcido.
O texto flui, a narrativa prende. O personagem desloca-se muito à vontade de uma página a outra, de um tema a outro.
Este é o primeiro livro que leio de Gonçalo Tavares. O próximo será “Jerusalém”, romance vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2007.
Ficha Técnica: "O homem ou é tonto ou é mulher", de Gonçalo M. Tavares, Editora Casa da Palavra
Nesse monólogo, Gonçalo Tavares mistura obsessões, fúrias, amores e loucura. Tudo amarrado em poesia. Nos deixamos levar pelo desvario de um louco furioso e, de repente, somos surpreendidos por uma idéia, algo que desprende do texto, capaz de abalar o raciocínio mais lúcido.
O texto flui, a narrativa prende. O personagem desloca-se muito à vontade de uma página a outra, de um tema a outro.
Este é o primeiro livro que leio de Gonçalo Tavares. O próximo será “Jerusalém”, romance vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2007.
Ficha Técnica: "O homem ou é tonto ou é mulher", de Gonçalo M. Tavares, Editora Casa da Palavra
Equador
Descobri que não conheço nada da história de Portugal. Aquilo que eu pensava conhecer é nada mais do que história do Brasil, ou, melhor, a parcela da história do Brasil na qual Portugal tem papel de destaque.
Por isso, ler Miguel Sousa Tavares sempre desperta minha curiosidade. Claro, trata-se de ficção. Mas, bem ou mal, vários incidentes reais do percurso de Portugal são mencionados, revisitados e reinventados.
Ao ler sobre a relação de Portugal com suas outras colônias é impossível não pensar em sua relação com o Brasil e nos desdobramentos das decisões tomadas em 1808.
Passei boa parte do livro me angustiando com a inaptidão do personagem para o cargo de governador de São Tomé e Príncipe, mas torcendo por ele. Sufocada pelo calor úmido da ilha, transpirando, sentindo seus cheiros e gostos.
Até onde sei, trata-se do primeiro romance de Miguel Sousa Tavares. Mas li, antes dele, “Rio das Flores”. De alguma forma, “Rio das Flores” me parece uma evolução de “Equador”. Há um equilíbrio maior, um domínio maior do autor sobre os diversos elementos da narrativa. Gostei de “Equador”, mas me encantei com “Rio das Flores”.
Ficha Técnica: “Equador”, de Miguel Sousa Tavares, Editora Nova Fronteira
Por isso, ler Miguel Sousa Tavares sempre desperta minha curiosidade. Claro, trata-se de ficção. Mas, bem ou mal, vários incidentes reais do percurso de Portugal são mencionados, revisitados e reinventados.
Ao ler sobre a relação de Portugal com suas outras colônias é impossível não pensar em sua relação com o Brasil e nos desdobramentos das decisões tomadas em 1808.
Passei boa parte do livro me angustiando com a inaptidão do personagem para o cargo de governador de São Tomé e Príncipe, mas torcendo por ele. Sufocada pelo calor úmido da ilha, transpirando, sentindo seus cheiros e gostos.
Até onde sei, trata-se do primeiro romance de Miguel Sousa Tavares. Mas li, antes dele, “Rio das Flores”. De alguma forma, “Rio das Flores” me parece uma evolução de “Equador”. Há um equilíbrio maior, um domínio maior do autor sobre os diversos elementos da narrativa. Gostei de “Equador”, mas me encantei com “Rio das Flores”.
Ficha Técnica: “Equador”, de Miguel Sousa Tavares, Editora Nova Fronteira
domingo, 30 de novembro de 2008
Uma gentileza
São Paulo é uma cidade maluca. São tantos contrastes, tantas misturas que deixam a gente até tonta.
Hoje eu estava perdida, dentro de um ônibus, sem saber direito se eu conseguiria chegar ao meu destino. De mau humor, claro.
Estava descendo a Cardeal Arcoverde quando perguntei à mulher ao meu lado se o ônibus passaria pelo Largo de Pinheiros.
Tinha quase certeza de que sim, mas achei melhor confirmar. Minha companheira de ônibus, não só confirmou, como, perguntou para onde eu iria e passou a explicar detalhadamente o caminho, sem que eu sequer pedisse.
Se aplicou tanto a essa tarefa que acabou deixando passar seu próprio ponto e teve que descer no seguinte.
Ainda não satisfeita, consultou o cobrador antes de descer e fez um sinal pra mim só para confirmar que a orientação dada estava correta.
Desci do ônibus pouco depois, no lugar indicado por ela, e cheguei onde eu queria. Sem erros, sem desvios.
Melhor: cheguei de bom humor, alegre pela gentileza. E, acima de tudo, agradecida.
Hoje eu estava perdida, dentro de um ônibus, sem saber direito se eu conseguiria chegar ao meu destino. De mau humor, claro.
Estava descendo a Cardeal Arcoverde quando perguntei à mulher ao meu lado se o ônibus passaria pelo Largo de Pinheiros.
Tinha quase certeza de que sim, mas achei melhor confirmar. Minha companheira de ônibus, não só confirmou, como, perguntou para onde eu iria e passou a explicar detalhadamente o caminho, sem que eu sequer pedisse.
Se aplicou tanto a essa tarefa que acabou deixando passar seu próprio ponto e teve que descer no seguinte.
Ainda não satisfeita, consultou o cobrador antes de descer e fez um sinal pra mim só para confirmar que a orientação dada estava correta.
Desci do ônibus pouco depois, no lugar indicado por ela, e cheguei onde eu queria. Sem erros, sem desvios.
Melhor: cheguei de bom humor, alegre pela gentileza. E, acima de tudo, agradecida.
sábado, 29 de novembro de 2008
O outro pé da sereia
Atravessando mundos e séculos, Mia Couto narra histórias paralelas, separadas por séculos e culturas, mas estranhamente próximas.
Como pano de fundo, a religião, as crenças e os reflexos de povos que se esbarram, se encontram, se misturam, se chocam e se fundem.
Você pode ler o livro como se ele falasse de mundos distantes, exóticos, apartados do nosso. Mas, sinceramente, não acredito nisso. Prefiro ver no texto um outro olhar sobre nós mesmos, nossas origens, nossa história.
Em 1560, D. Gonçalo da Silveira leva uma imagem de Nossa Senhora desde a Índia até Moçambique. Viaja para catequizar.
Em 1560, Nimi Nsundi, viaja da Índia a Moçambique como escravo, mas serve à Kianda, a deusa das águas, também cativa da nau dos portugueses, presa numa estátua de madeira, ordenando ser libertada.
Em 2002, de novo a estátua. Se da santa, se da deusa, não sei. Mas, dessa vez, quem anseia por liberdade é outra personagem: Mwadia, a canoa, aquela que faz a travessia, a passagem.
Costurando por esses retalhos, o autor constrói sua história. Com humor e inteligência.
O outro pé da sereia revela um pouco de uma cultura distante e próxima, a da África de língua portuguesa. É um bom livro para se conhecer um pouco do trabalho de Mia Couto.
Ficha Técnica: "O outro pé da sereia", de Mia Couto, Editora Companhia das Letras.
Como pano de fundo, a religião, as crenças e os reflexos de povos que se esbarram, se encontram, se misturam, se chocam e se fundem.
Você pode ler o livro como se ele falasse de mundos distantes, exóticos, apartados do nosso. Mas, sinceramente, não acredito nisso. Prefiro ver no texto um outro olhar sobre nós mesmos, nossas origens, nossa história.
Em 1560, D. Gonçalo da Silveira leva uma imagem de Nossa Senhora desde a Índia até Moçambique. Viaja para catequizar.
Em 1560, Nimi Nsundi, viaja da Índia a Moçambique como escravo, mas serve à Kianda, a deusa das águas, também cativa da nau dos portugueses, presa numa estátua de madeira, ordenando ser libertada.
Em 2002, de novo a estátua. Se da santa, se da deusa, não sei. Mas, dessa vez, quem anseia por liberdade é outra personagem: Mwadia, a canoa, aquela que faz a travessia, a passagem.
Costurando por esses retalhos, o autor constrói sua história. Com humor e inteligência.
O outro pé da sereia revela um pouco de uma cultura distante e próxima, a da África de língua portuguesa. É um bom livro para se conhecer um pouco do trabalho de Mia Couto.
Ficha Técnica: "O outro pé da sereia", de Mia Couto, Editora Companhia das Letras.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Um terno de pássaros ao sul
“Um terno de pássaros ao sul” é uma espécie de acerto de contas. Acerto de contas de um poeta, frise-se. Menos com uma pessoa – seu pai – e mais com o passado, com a história de cada um, com a vida em todo o seu potencial humano.
Entre pessoas tecidas para o amor e amortecidas por ele, o poeta faz sua viagem entre passado e presente, infância e maturidade.
“Quando nasceram os filhos, amaste teus escritos. Quando nasceram os netos, amastes teus cachorros. Quando vamos coincidir?”
Talhado para o amor e amortalhado por ele, o poeta filtra decepção, dor, amor, reconhecimento. Não se trata de perdão, mas de aceitação. O menino e o homem se fundem ao texto. Primeiro filho, agora pai, o poeta se recompõe.
“Tivemos a coragem de superar o começo, não transformar a filiação em carta de guerra, imitação da treva.”
O abandono e o reencontro. A dureza das palavras contrapostas ao pedido da criança: “Volta ao pampa, pai”. “Volta ao pai, pampa.”
Ficha Técnica: "Um terno de pássaros ao sul", de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.
Entre pessoas tecidas para o amor e amortecidas por ele, o poeta faz sua viagem entre passado e presente, infância e maturidade.
“Quando nasceram os filhos, amaste teus escritos. Quando nasceram os netos, amastes teus cachorros. Quando vamos coincidir?”
Talhado para o amor e amortalhado por ele, o poeta filtra decepção, dor, amor, reconhecimento. Não se trata de perdão, mas de aceitação. O menino e o homem se fundem ao texto. Primeiro filho, agora pai, o poeta se recompõe.
“Tivemos a coragem de superar o começo, não transformar a filiação em carta de guerra, imitação da treva.”
O abandono e o reencontro. A dureza das palavras contrapostas ao pedido da criança: “Volta ao pampa, pai”. “Volta ao pai, pampa.”
Ficha Técnica: "Um terno de pássaros ao sul", de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
A criança em ruínas
Um livro dolorido. Ausência, dor, separação, perda. Saudade de um tempo passado, de uma infância que já não existe mais. Saudade de uma parte da vida já vivida e que, por isso, não existe mais. Ou existe. Mais do que nunca, pois não pode mais ser alterada ou esquecida ou retocada.
A imagem de uma criança em ruínas não é exatamente agradável. Mas na infância retratada pelo poeta, as crianças parecem ser crianças. A infância tem cara, jeito, gosto de infância. Na verdade, a idéia que fica é a da passagem do tempo. Da criança que deixou de ser criança porque cresceu. E do adulto que, de algum modo, se ressente com isso.
Mais do que síndrome de Peter Pan, a nostalgia da infância surge como uma espécie de resgate da ausência, uma recomposição do conceito de família, do conforto e da segurança que, na vida adulta, são tão difíceis de recuperar.
Um livro apaixonante.
Ficha Técnica: "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto, Editora Quasi.
A imagem de uma criança em ruínas não é exatamente agradável. Mas na infância retratada pelo poeta, as crianças parecem ser crianças. A infância tem cara, jeito, gosto de infância. Na verdade, a idéia que fica é a da passagem do tempo. Da criança que deixou de ser criança porque cresceu. E do adulto que, de algum modo, se ressente com isso.
Mais do que síndrome de Peter Pan, a nostalgia da infância surge como uma espécie de resgate da ausência, uma recomposição do conceito de família, do conforto e da segurança que, na vida adulta, são tão difíceis de recuperar.
Um livro apaixonante.
Ficha Técnica: "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto, Editora Quasi.
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