“Um terno de pássaros ao sul” é uma espécie de acerto de contas. Acerto de contas de um poeta, frise-se. Menos com uma pessoa – seu pai – e mais com o passado, com a história de cada um, com a vida em todo o seu potencial humano.
Entre pessoas tecidas para o amor e amortecidas por ele, o poeta faz sua viagem entre passado e presente, infância e maturidade.
“Quando nasceram os filhos, amaste teus escritos. Quando nasceram os netos, amastes teus cachorros. Quando vamos coincidir?”
Talhado para o amor e amortalhado por ele, o poeta filtra decepção, dor, amor, reconhecimento. Não se trata de perdão, mas de aceitação. O menino e o homem se fundem ao texto. Primeiro filho, agora pai, o poeta se recompõe.
“Tivemos a coragem de superar o começo, não transformar a filiação em carta de guerra, imitação da treva.”
O abandono e o reencontro. A dureza das palavras contrapostas ao pedido da criança: “Volta ao pampa, pai”. “Volta ao pai, pampa.”
Ficha Técnica: "Um terno de pássaros ao sul", de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
A criança em ruínas
Um livro dolorido. Ausência, dor, separação, perda. Saudade de um tempo passado, de uma infância que já não existe mais. Saudade de uma parte da vida já vivida e que, por isso, não existe mais. Ou existe. Mais do que nunca, pois não pode mais ser alterada ou esquecida ou retocada.
A imagem de uma criança em ruínas não é exatamente agradável. Mas na infância retratada pelo poeta, as crianças parecem ser crianças. A infância tem cara, jeito, gosto de infância. Na verdade, a idéia que fica é a da passagem do tempo. Da criança que deixou de ser criança porque cresceu. E do adulto que, de algum modo, se ressente com isso.
Mais do que síndrome de Peter Pan, a nostalgia da infância surge como uma espécie de resgate da ausência, uma recomposição do conceito de família, do conforto e da segurança que, na vida adulta, são tão difíceis de recuperar.
Um livro apaixonante.
Ficha Técnica: "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto, Editora Quasi.
A imagem de uma criança em ruínas não é exatamente agradável. Mas na infância retratada pelo poeta, as crianças parecem ser crianças. A infância tem cara, jeito, gosto de infância. Na verdade, a idéia que fica é a da passagem do tempo. Da criança que deixou de ser criança porque cresceu. E do adulto que, de algum modo, se ressente com isso.
Mais do que síndrome de Peter Pan, a nostalgia da infância surge como uma espécie de resgate da ausência, uma recomposição do conceito de família, do conforto e da segurança que, na vida adulta, são tão difíceis de recuperar.
Um livro apaixonante.
Ficha Técnica: "A criança em ruínas", de José Luís Peixoto, Editora Quasi.
Canalha! - uma introdução
Nesta última sexta-feira, fui ouvir Fabrício Carpinejar falar sobre seu novo livro de crônicas: “Canalha!”. O tema do encontro: “Feios, limpos e malvados”. O parceiro: Xico Sá. Enfim, diversão garantida.
Carpinejar já havia postado em seu blog alguns textos sobre o livro, além de matérias publicadas na imprensa. Nesses textos, ele apresenta seu conceito de canalha, fazendo as devidas distinções entre cafajestes e afins.
O que eu pude entender disso tudo é que o canalha é um eterno apaixonado. Inconstante, impulsivo e descompromissado. É o cara que, quando está com você, é completamente seu. Não poderia haver melhor companhia. É aquele que te olha e não precisa dizer nada para você se sentir a mulher mais interessante do planeta. Que seduz, cativa e consome. O canalha sempre põe a mão no lugar certo, na hora certa. E, quando não está afim, simplesmente desaparece para reaparecer num outro dia qualquer, sem aviso, sem notícia.
Pode haver coisa melhor que isso? Claro, eu não recomendaria um canalha para quem quer constituir família. Mas, se a sua já estiver constituída, ou desconstituída – ou, ainda, em qualquer fase desse processo –, o canalha me parece ser uma ótima opção.
Para mim, o canalha é a versão moderna do príncipe encantado. E já estava na hora dele se atualizar, afinal, nem nos desenhos animados os velhos príncipes estão em alta. Em Shrek, por exemplo, entre o Encantado e o ogro, quem não escolheria o ogro?
O canalha aparece quando você já desistiu de esperar por ele e se desdobra para te conquistar mais uma vez, para fazer todas as suas vontades. Depois some de novo. Não dá tempo de enjoar. Deixa para trás algo mal resolvido, o fiozinho do novelo, a retomada possível. Além de tudo, é discreto. Não sai contando vantagens por aí, o que amplia ainda mais seu raio de ação – sem distinção de credo, raça ou conta bancária –, sem pudores ou constrangimentos.
Claro que essas idas e vindas podem ser difíceis de suportar. O canalha está sempre de passagem. Mas isso o torna absolutamente previsível. Namoros, casamentos e tudo mais é que são complicados, pois, teoricamente, são feitos para durar. Mas por quanto tempo? Quanto dura um casamento, uma paixão, um relacionamento?
Com o canalha, não há esse problema. Não vai durar e pronto. Muito mais fácil. E isso obriga ambas as partes a aproveitarem cada instante da melhor maneira possível.
Na verdade, acho que o maior problema é de ordem quantitativa. Não é fácil ser canalha. Satisfazer uma mulher, mesmo que esporadicamente, não é para qualquer um. É preciso muita competência e uma boa dose de talento. Canalha de verdade, digno do nome, há poucos por aí.
Bom, só queria registrar aqui minhas primeiras impressões sobre o que ouvi falar e li a respeito de "Canalha!". Agora vou direto à fonte, acabei de comprar o livro. Vamos ver se essa primeira percepção se sustenta.
Por ora, que venham os canalhas!
Carpinejar já havia postado em seu blog alguns textos sobre o livro, além de matérias publicadas na imprensa. Nesses textos, ele apresenta seu conceito de canalha, fazendo as devidas distinções entre cafajestes e afins.
O que eu pude entender disso tudo é que o canalha é um eterno apaixonado. Inconstante, impulsivo e descompromissado. É o cara que, quando está com você, é completamente seu. Não poderia haver melhor companhia. É aquele que te olha e não precisa dizer nada para você se sentir a mulher mais interessante do planeta. Que seduz, cativa e consome. O canalha sempre põe a mão no lugar certo, na hora certa. E, quando não está afim, simplesmente desaparece para reaparecer num outro dia qualquer, sem aviso, sem notícia.
Pode haver coisa melhor que isso? Claro, eu não recomendaria um canalha para quem quer constituir família. Mas, se a sua já estiver constituída, ou desconstituída – ou, ainda, em qualquer fase desse processo –, o canalha me parece ser uma ótima opção.
Para mim, o canalha é a versão moderna do príncipe encantado. E já estava na hora dele se atualizar, afinal, nem nos desenhos animados os velhos príncipes estão em alta. Em Shrek, por exemplo, entre o Encantado e o ogro, quem não escolheria o ogro?
O canalha aparece quando você já desistiu de esperar por ele e se desdobra para te conquistar mais uma vez, para fazer todas as suas vontades. Depois some de novo. Não dá tempo de enjoar. Deixa para trás algo mal resolvido, o fiozinho do novelo, a retomada possível. Além de tudo, é discreto. Não sai contando vantagens por aí, o que amplia ainda mais seu raio de ação – sem distinção de credo, raça ou conta bancária –, sem pudores ou constrangimentos.
Claro que essas idas e vindas podem ser difíceis de suportar. O canalha está sempre de passagem. Mas isso o torna absolutamente previsível. Namoros, casamentos e tudo mais é que são complicados, pois, teoricamente, são feitos para durar. Mas por quanto tempo? Quanto dura um casamento, uma paixão, um relacionamento?
Com o canalha, não há esse problema. Não vai durar e pronto. Muito mais fácil. E isso obriga ambas as partes a aproveitarem cada instante da melhor maneira possível.
Na verdade, acho que o maior problema é de ordem quantitativa. Não é fácil ser canalha. Satisfazer uma mulher, mesmo que esporadicamente, não é para qualquer um. É preciso muita competência e uma boa dose de talento. Canalha de verdade, digno do nome, há poucos por aí.
Bom, só queria registrar aqui minhas primeiras impressões sobre o que ouvi falar e li a respeito de "Canalha!". Agora vou direto à fonte, acabei de comprar o livro. Vamos ver se essa primeira percepção se sustenta.
Por ora, que venham os canalhas!
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Crise Financeira
Dona Maria entra no armazém da esquina e cumprimenta o dono. Minutos depois, coloca sobre o balcão a compra do dia e a caderneta do fiado.
- Xi, dona Maria, agora não tem mais fiado, não. Só vendo à vista.
- Como assim, seu João, eu sempre comprei com caderneta. E paguei em dia.
- É a crise, dona Maria, é a crise.
- Que crise?
- Essa aí, da televisão, a crise financeira.
Seu João falou arregalando os olhos e se demorando em cada sílaba da fatídica crise.
- Essa dos bancos?
Dona Maria estava antenada.
- É, essa danada.
- Mas o senhor não é banco, seu João. Aliás, nem conta o senhor tem que eu sei!
Era verdade, mas não fazia a menor diferença. Seu João não tinha dinheiro no banco mas sabia que os bancos eram especialistas em fazer dinheiro. Enfim, um exemplo a seguir.
- A senhora nunca ouviu falar em globalização, dona Maria? Essa crise é assim, globalizada. Mesmo eu não sendo banco, ela vai chegar até aqui. Vai faltar crédito na praça. Se nem os bancos vão emprestar, como é que eu vou me arriscar?
Dona Maria já ia a perder a paciência, mas se conteve a tempo. Respirou fundo e voltou à carga com novos argumentos.
- Mas essa crise não é de verdade, seu João. O senhor não ouviu o presidente na TV outro dia? É crise de confiança. Agora só falta o senhor dizer que não confia aqui, na sua comadre.
Seu João coçou a cabeça, pensativo. Confiar, confiava, mas sempre desconfiando. Entre confiar nos bancos, porém, ou na comadre, acabou optando pela alternativa mais segura.
- Vá lá, dona Maria, vá lá. Me passe essa caderneta.
Dona Maria sorriu, satisfeita. Agora era torcer para a crise não levar o emprego do marido, caso contrário, como é que ela iria pagar a caderneta?
- Xi, dona Maria, agora não tem mais fiado, não. Só vendo à vista.
- Como assim, seu João, eu sempre comprei com caderneta. E paguei em dia.
- É a crise, dona Maria, é a crise.
- Que crise?
- Essa aí, da televisão, a crise financeira.
Seu João falou arregalando os olhos e se demorando em cada sílaba da fatídica crise.
- Essa dos bancos?
Dona Maria estava antenada.
- É, essa danada.
- Mas o senhor não é banco, seu João. Aliás, nem conta o senhor tem que eu sei!
Era verdade, mas não fazia a menor diferença. Seu João não tinha dinheiro no banco mas sabia que os bancos eram especialistas em fazer dinheiro. Enfim, um exemplo a seguir.
- A senhora nunca ouviu falar em globalização, dona Maria? Essa crise é assim, globalizada. Mesmo eu não sendo banco, ela vai chegar até aqui. Vai faltar crédito na praça. Se nem os bancos vão emprestar, como é que eu vou me arriscar?
Dona Maria já ia a perder a paciência, mas se conteve a tempo. Respirou fundo e voltou à carga com novos argumentos.
- Mas essa crise não é de verdade, seu João. O senhor não ouviu o presidente na TV outro dia? É crise de confiança. Agora só falta o senhor dizer que não confia aqui, na sua comadre.
Seu João coçou a cabeça, pensativo. Confiar, confiava, mas sempre desconfiando. Entre confiar nos bancos, porém, ou na comadre, acabou optando pela alternativa mais segura.
- Vá lá, dona Maria, vá lá. Me passe essa caderneta.
Dona Maria sorriu, satisfeita. Agora era torcer para a crise não levar o emprego do marido, caso contrário, como é que ela iria pagar a caderneta?
domingo, 26 de outubro de 2008
Como no céu / Livro de visitas
É difícil ser racional quando o tema é poesia. De que adianta admirar a originalidade do tema, o domínio da linguagem, a melodia, a fluidez do texto se essa poesia não te emociona? Se todas essas letras e palavras que se juntam não te comovem?
A poesia é passional. É relação a dois. Ela precisa tocar em algum ponto sensível e esquecido de si mesmo. Você precisa passar dias arrastando o livro de um lado para outro dentro de casa, na bolsa, espalhando papeizinhos para marcar os poemas que tem que reler, abrir uma página à toa e ler mais um antes de dormir, grifar uma palavra, uma frase, uma página – mas, a lápis, para não estragar o livro. É preciso espalhá-los pela cama.
Com o Carpinejar foi assim. Li uma poesia numa matéria de jornal, depois uma matéria assinada por ele numa revista. Peguei um livro dele para folhear, escolhi pela capa, numa livraria. Jurei que só ia olhar. Comprei. Li e adorei. Paciência. Não se pode negar a própria natureza!
Gosto da supremacia das idéias – aparente ou não – sobre o texto. Gosto das palavras simples e gosto do gosto das palavras.
Ficha Técnica: "Como no Céu / Livro de Visitas", de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.
A poesia é passional. É relação a dois. Ela precisa tocar em algum ponto sensível e esquecido de si mesmo. Você precisa passar dias arrastando o livro de um lado para outro dentro de casa, na bolsa, espalhando papeizinhos para marcar os poemas que tem que reler, abrir uma página à toa e ler mais um antes de dormir, grifar uma palavra, uma frase, uma página – mas, a lápis, para não estragar o livro. É preciso espalhá-los pela cama.
Com o Carpinejar foi assim. Li uma poesia numa matéria de jornal, depois uma matéria assinada por ele numa revista. Peguei um livro dele para folhear, escolhi pela capa, numa livraria. Jurei que só ia olhar. Comprei. Li e adorei. Paciência. Não se pode negar a própria natureza!
Gosto da supremacia das idéias – aparente ou não – sobre o texto. Gosto das palavras simples e gosto do gosto das palavras.
Ficha Técnica: "Como no Céu / Livro de Visitas", de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.
Gaveta de papéis
Cada vez que leio, encontro algo novo. Da primeira vez, a curiosidade me fez ler tudo na mesma hora. É um livro pequeno e rápido. Terminei e fiquei perdida.
Comecei outra vez. Então com calma. Um poema por vez. Mentira, não consigo ler um por vez. Mas poucos por vez. Primeiro em pensamento, depois em voz alta. Sempre faço isso. Preciso ouvir o som das palavras.
Senti ciúme do poeta. Das viagens, dos amores, das emoções, sensações. Ciúme ou inveja. Difícil dizer. É bom partilhar das emoções alheias, extravasar, exorcisar as nossas nelas. Mas isso também me lembra da minha incapacidade de exorcisar as minhas próprias, sem escadas, sem muletas, fugas, escapatórias. O texto de Peixoto é uma espécie de vício.
Comecei outra vez. Então com calma. Um poema por vez. Mentira, não consigo ler um por vez. Mas poucos por vez. Primeiro em pensamento, depois em voz alta. Sempre faço isso. Preciso ouvir o som das palavras.
Senti ciúme do poeta. Das viagens, dos amores, das emoções, sensações. Ciúme ou inveja. Difícil dizer. É bom partilhar das emoções alheias, extravasar, exorcisar as nossas nelas. Mas isso também me lembra da minha incapacidade de exorcisar as minhas próprias, sem escadas, sem muletas, fugas, escapatórias. O texto de Peixoto é uma espécie de vício.
Rio das Flores
Fiel a minha fase “portuguesa”, acabo de ler “Rio das Flores”, de Miguel Sousa Tavares. Conheci o autor por acaso, mudando os canais da TV e dando com ele no Roda Viva. Foi assim que resolvi ler o livro. A história se passa entre Portugal e Brasil. O autor narra a história de uma família portuguesa, mais precisamente de dois irmãos, na primeira metade do século XX, no entre guerras.
Os personagens conquistam com facilidade, a narrativa flui como o rio do título. Dá para sentir o cheiro do ar. Do calor do Brasil. Do calor e do frio de Portugal. Da terra.
Irmãos que se amam apesar das diferenças. Que se decepcionam um com o outro, que não se compreendem, que assumem posições opostas na vida. E se amam. E são irmãos.
Há uma sensação de “pertencimento” que atravessa toda a obra. Dos personagens com a terra e das mulheres com os homens. Não se trata de amor. O amor é outra coisa. Mas sim de sentido, direção, diretriz, razão de ser. A relação homem-mulher no viés do macho e da fêmea, sem que isso signifique submissão ou humilhação ou simples apelo ao sexo. A eterna ânsia da completude. A noção e o reconhecimento dessa necessidade atávica, inata, fisiológica. E a sensualidade que perpassa os cenários, diálogos e corpos que se tocam ou não.
O modo como a história da família se contorce e se confunde com a historia de Portugal, do Brasil e do mundo é apaixonante. A vida, as decisões de cada um, o destino são induzidos, conduzidos, confundidos com a história de todos, de nações inteiras, de continentes e mundos. Separados e indissociáveis simultaneamente.
Há uma reflexão necessária nisso tudo. Quando os irmãos, assumindo posições opostas numa guerra deflagrada e buscada, se confrontam, não se pode recusar a similitude, a semelhança. A guerra é guerra por si só. Todos os lados são maus. Todos guerreiam. E lutar é lutar. Somos todos iguais nesse instante. A violência instala-se de lado a lado. Não há bem ou mal, mocinhos e bandidos. As atrocidades de um lado são ‘contrabalançadas’ pelas atrocidades do outro.
Engraçado o olhar português sobre o Brasil, muitas vezes carinhoso. Parece que eles se identificam mais com o Brasil do que o Brasil com eles. O Brasil como alegria. Sem o ranço, sem o peso, o cansaço, a tristeza e a idade da Europa. A juventude do Brasil. O país por descobrir. O tamanho, a largueza das fronteiras.
E, entre tantas alegrias e tristezas, amores e traições, a catarse: “Queres mesmo?” “Quero muito.” É preciso ler.
Os personagens conquistam com facilidade, a narrativa flui como o rio do título. Dá para sentir o cheiro do ar. Do calor do Brasil. Do calor e do frio de Portugal. Da terra.
Irmãos que se amam apesar das diferenças. Que se decepcionam um com o outro, que não se compreendem, que assumem posições opostas na vida. E se amam. E são irmãos.
Há uma sensação de “pertencimento” que atravessa toda a obra. Dos personagens com a terra e das mulheres com os homens. Não se trata de amor. O amor é outra coisa. Mas sim de sentido, direção, diretriz, razão de ser. A relação homem-mulher no viés do macho e da fêmea, sem que isso signifique submissão ou humilhação ou simples apelo ao sexo. A eterna ânsia da completude. A noção e o reconhecimento dessa necessidade atávica, inata, fisiológica. E a sensualidade que perpassa os cenários, diálogos e corpos que se tocam ou não.
O modo como a história da família se contorce e se confunde com a historia de Portugal, do Brasil e do mundo é apaixonante. A vida, as decisões de cada um, o destino são induzidos, conduzidos, confundidos com a história de todos, de nações inteiras, de continentes e mundos. Separados e indissociáveis simultaneamente.
Há uma reflexão necessária nisso tudo. Quando os irmãos, assumindo posições opostas numa guerra deflagrada e buscada, se confrontam, não se pode recusar a similitude, a semelhança. A guerra é guerra por si só. Todos os lados são maus. Todos guerreiam. E lutar é lutar. Somos todos iguais nesse instante. A violência instala-se de lado a lado. Não há bem ou mal, mocinhos e bandidos. As atrocidades de um lado são ‘contrabalançadas’ pelas atrocidades do outro.
Engraçado o olhar português sobre o Brasil, muitas vezes carinhoso. Parece que eles se identificam mais com o Brasil do que o Brasil com eles. O Brasil como alegria. Sem o ranço, sem o peso, o cansaço, a tristeza e a idade da Europa. A juventude do Brasil. O país por descobrir. O tamanho, a largueza das fronteiras.
E, entre tantas alegrias e tristezas, amores e traições, a catarse: “Queres mesmo?” “Quero muito.” É preciso ler.
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