quarta-feira, 17 de junho de 2009

Nós, os afortunados

"Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos..."

[Trecho de “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, pág. 21, Editora Companhia das Letras, São Paulo:2007]

terça-feira, 9 de junho de 2009

Viver sem tempos mortos


Quero meu duplo

Simone ou Fernanda? Difícil dizer o que move a peça, se a personagem ou a atriz que a personifica.

Quero meu duplo

Durante 60 minutos são elas que dão as cartas, sentadas numa cadeira, num palco vazio, despejando palavras, contando histórias, narrando uma vida. Admiro a coragem de ambas. Ela me comove.

Quero meu duplo

Ao final da peça, as luzes se apagam e o teatro deságua em aplausos. Em algum instante, na escuridão e no barulho estrepitoso, Simone cederá lugar à Fernanda. Eu aguardo, ansiosa. E é esta quem recupera o fôlego para agradecer a manifestação emocionada e vibrante do público, já sob as luzes acesas.

Quero meu duplo

Como será essa sensação? Quedar sentada no escuro, sozinha e exposta em praça pública ao mesmo tempo, após uma hora de concentração, nervosismo, esforço. Uma hora de tensão que consome o corpo, retesa os músculos, obriga a respiração a se ajustar às frases, o corpo a se conter.

Quero meu duplo

Saber-se o centro das atenções, a principal peça do tabuleiro. Comandar uma multidão de pessoas, conduzi-las por caminhos que só você conhece, jogar com elas, invadi-las. Abduzi-las. E, no final, ali, calada, protegida pela ausência de luz, sentir pela vibração do chão que alcançou seu objetivo.

Quero meu duplo

Durante aqueles ínfimos segundos, debaixo de escuridão e dos aplausos, o rosto invisível, a respiração ainda acelerada, o corpo aquecido pelo esforço, os músculos começando a desfalecer, aliviados, o que respira Fernanda? Que ar invade seus pulmões?

Ficha Técnica: "Viver sem tempos mortos", peça inspirada em correspondências de Simone de Beauvoir para Jean-Paul Sartre, com Fernanda Montenegro e direção de Felipe Hirsh. Em exibição no SESC Consolação.

terça-feira, 26 de maio de 2009

The Gathering

Uma história de família. Grande e desequilibrada. Narrada em primeira pessoa, por uma das personagens, Veronica. E aí está o que mais me agradou nesse livro. O modo como a história é contada, mais do que a história em si.

Embora a narrativa não seja linear, oscilando entre passado e presente, não há confusão alguma. A condução de Anne Enright, sua construção, funciona bem. Nem a inconstância de Veronica, a personagem-narradora, que vive no limite da consciência e da perturbação, representa um obstáculo ao leitor.

Apesar da dramaticidade, a narrativa é sóbria em sentimentos. A memória e a invenção se confundem. Veronica não sabe se imagina ou recorda. Em determinadas passagens, deixa claro sua invencionice. Afinal, o que importa se tudo se passou dessa ou daquela maneira? Poderia ter sido assim. E isso é o suficiente para desnudar os personagens que apresenta.

E em todos os momentos, os laços de família. Que une cada um ao outro. Uma corda que aperta braços, cinturas, pernas, pescoços. Às vezes tão forte a ponto de sufocar. Amor e ódio. Vida e morte.

Gosto da novidade do texto de Anne Enright, da agressividade e dramaticidade de Veronica, do seu tom seco e cortante, da ironia. E, por debaixo disso, a dor. Imensa. Excruciante. Pelo que se perde e pelo que se ganha. Por se estar vivo e por querer morrer.

Ficha Técnica: "The Gathering", de Anne Enright, Editora Black Cat, New York: 2007. (Publicado no Brasil com o título “O Encontro”, pela Alfaguara Brasil.)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Jesus da Costa

Chamava-se Jesus da Costa. Pregava a humildade. Por isso não acreditava em deus. Seria muita presunção.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Andrea del Fuego

Aos interessados, segue uma pequena 'amostra' do trabalho da autora: http://www.cronopios.com.br/stand-up/standup_andrea_del_fuego.pdf.

O Espaço do Leitor na Ficcção (debate)

Onde: Itaú Cultural (Av. Paulista, n. 149, esquina com a R. Leôncio de Carvalho)

Quando: Sexta, dia 22, às 20h

Debate: O Espaço do Leitor na Ficção ou Qual o Lugar do Leitor Real no Processo de Invenção?

Participantes: Bernardo Carvalho, Cintia Moscovich e Cristovão Tezza, com mediação de Manuel da Costa Pinto

“Qual o espaço ocupado pelo leitor real no processo de criação do escritor? Quem escreve conhece seu leitor real? Para quem se cria? Que tipo de público (faixa etária, classe social etc.)? Como lidar com três leitores bastante reais: o editor, o tradutor e o crítico literário? Se você é escritor, costuma mostrar seus originais a alguém antes de enviá-los para a editora - um leitor antes do leitor? O que você pretende que o leitor sinta ao ler um livro seu? Que tipo de leitor você acha que está representado nos seus livros? Quais leitores da chamada vida real você transforma em personagens?”

Esse debate faz parte do programa "Encontros de Interrogação", que acontece de 21 a 23 de maio no Itaú Cultural. Entrada gratuita. Ingressos distribuídos no local com meio hora de antecedência.

Mais informações: http://www.itaucultural.com.br/index.cfm?cd_pagina=2841&cd_materia=983&mes=5&ano=2009

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Stand-Up Literatura com Andréa del Fuego

Começou assim...

“Tomei um elevador com Clarice Lispector. Ela usava um vestido esmeralda e uma opala pendurada numa corrente. Segurava o cigarro para acendê-lo quando saísse, me olhou do joelho aos pés. Eu parei no térreo, ela continuou descendo.”

Andréa é jovem. Cabelos negros encaracolados, pele branca. Chegou protegida por uma espécie de timidez desenvolta. Simpática, carismática. Conquistou o público de imediato.

Leu alguns de seus textos, acompanhada por Celso Amâncio no violino. Isso tudo no pequeno café da Martins Fontes. Aos poucos, um grupo de pessoas passou a se aglomerar na entrada do café. Todos muito interessados.

Eu não conheço o trabalho de Andréa del Fuego, mas os títulos dos seus livros de contos soaram como provocação: “Nego tudo”, “Minto enquanto posso” e “Engano seu”. Comigo, funcionou. Deu mesmo vontade de ler.

Acabo de descobrir que ela também gosta do José Luís Peixoto, um dos autores portugueses cujo trabalho eu tenho acompanhado desde a última Flip. Resumindo, gostei da prévia. Incluí Andréa na minha lista de autores a conhecer.

Terminou assim...

“Nuno Leal Maia me pediu o telefone do William Bonner. Não posso dar, conheci ele há pouco tempo, vai achar que tô distribuindo contato. Nuno Leal Maia tem que entender minha posição, o Bonner precisa confiar em mim.”


Andréa Del Fuego foi a autora convidada do segundo encontro do Stand-Up Literatura, resultado da parceria do Portal Cronopios (www.cronopios.com.br) com a Livraria Martins Fontes. (O primeiro aconteceu em 03 de maio e teve o poeta Frederico Barbosa como convidado.) Além dos livros de contos já citados, a autora publicou também dois títulos infanto-juvenis: “Sociedade da caveira de cristal” e “Quase caio”.