terça-feira, 7 de abril de 2009

Coisas de mulher

Eram três. Faixa etária: 45. Mulheres comuns. Tomavam café. Chamaram minha atenção com o arrastar de cadeiras e a contagem regressiva.

Uma delas, depois de apoiar a câmera fotográfica sobre uma pilha de livros, havia se levantado para se juntar às outras duas, já posicionadas em frente às lentes. Agachou-se entre as amigas dois segundos antes do disparo do flash.

Depois alcançou a câmera para checar o resultado. As três. Analisando o visor ao mesmo tempo entre risos e comentários satisfeitos. “Ficou ótima”.

O café estava cheio, mas elas preferiram não pedir ajuda a ninguém. Não sei se pensando em não incomodar ou se acreditando serem perfeitamente capazes do feito sem ajuda alguma.

Planejaram e executaram. O número certo de livros para alcançar a altura necessária. O lapso de tempo exato para o deslocamento da amiga. Os sorrisos sincronizados para o clique. Olhos bem abertos para não piscar.

Depois a comemoração conjunta e sincera dessa empreitada. E a ausência de modéstia: ficou ótima.

Excluindo a referência à modéstia, não consigo imaginar um grupo de homens repetindo a cena.

Acho que estamos levando à sério demais essa história de independência.

Sem Sangue

Alessandro Baricco outra vez. Numa novela maluca sobre guerras, vingança, violência, crimes, amor. Que faz pensar que as guerras são eternas para quem as vive. Não há armistício possível.

Nina é testemunha. E passa toda a sua vida transitando em torno do acontecimento que marcou sua infância e dos personagens que tomaram parte nele.

Em nenhum momento parece querer se livrar, esquecer, seguir adiante. Como se tivesse passado a vida vagando feito fantasma sobre os escombros da casa incendiada.

Uma história em que não há vítimas ou algozes. Uma boa história.

Ficha Técnica: “Sem Sangue”, de Alessandro Baricco, Companhia das Letras, 2008

"Gran Torino" / "Quem quer ser um milionário" / "Ele não está tão afim de você"

Gran Torino

Ele é ótimo, o Clint Eastwood. O filme também. A caracterização dos personagens. O ritmo da história, que fala de preconceito e violência.

Mas, apesar do tema, não espere um filme de denúncia social. É Hollywood. E não estou reclamando.

Os jovens atores que representam os vizinhos em apuro são encantadores. Além disso, a história foge do padrão herói apaixonado ou herói indestrutível. Trata-se de uma história sobre pessoas. Afeto, respeito, dever, velhice, família, diferenças culturais.

Quem quer ser um milionário?

O melhor comentário que li sobre o filme referia-se a ele como uma fábula. E é isso mesmo. Na verdade, um conto de fadas à indiana.

Um herói de coração puro que não se deixa contaminar pelo sofrimento, uma heroína apaixonada, um personagem ambíguo que acaba por se redimir, muitos vilões e uma fada madrinha (nesse caso, a sorte ou o destino, como preferir).

É ótimo. E novo. É bom variar de cenário, de rostos, de cultura, de vida.

Mas, depois da diversão, tente não pensar mais no filme ou, pelo menos, no seu pano de fundo: uma Índia miserável, um país de crianças perdidas.

Ele não está tão afim de você

Fui em busca de diversão, sem maiores pretensões. Encontrei. Isso e mais um pouco. Os diálogos são bons. A descrição do mundo feminino – com suas neuroses e incongruências – é bastante apurada.

A esposa patética, a soleira desesperada, a destruidora de lares e uma mulher perdida, sem saber direito como se encaixar nesse cenário, dividida entre o que sente e o que pensa e o que os outros pensam.

Impossível não se constranger com o modus operandi de Gigi. Mas difícil não se comover com ela.

Como sempre, as decisões recaem sobre as mulheres. São elas que conduzem a história. (Claro que a conduzem de forma a alcançar um único objetivo: encontrar o seu respectivo par – mas isso já é outro assunto).

E o que era para ser um filminho bobo, me fez parar para pensar sobre homens e mulheres e o futuro da humanidade.

Filmes que ainda quero ver:

- Valsa com Bashir
- Spirit
- Caos Calmo
- O leitor
- Brilho eterno de uma mente sem lembranças
- HellBoy 2
- O banheiro do Papa
- Do outro lado
- Irina Palm
- O segredo do grão
- A questão humana
- O homem de ferro
- Indiana Jones (o último)
- Batman (o último)
- Closer
- A arca russa
- A mulher sem cabeça / Pântano / A menina Santa
- Do outro lado
- Paranoid Park
- Armênia
- As leis da família
- Vermelho como o céu
- Em busca da vida
- O arco
- A vida secreta das palavras
- As invasões bárbaras

Sin Sangre

Assisti à peça no domingo, no SESC Vila Mariana. Quis ver porque se tratava de texto do Alessandro Baricco, autor italiano que participou da FLIP em 2008.

Já havia lido “Seda”, e “Sem sangue” estava na minha estante, à espera de sua vez. Acabei lendo o livro na sexta-feira para me antecipar ao espetáculo. (Como “Seda”, é um livro curto, mais um conto do que propriamente um romance.)

A montagem é bastante curiosa. Você tem a sensação de estar no cinema, e não no teatro. A tela e as projeções são elementos constantes no palco. Compõem o cenário e, em alguns momentos, substituem as cenas. Transformam-se nelas.

[Muito diferente de Avenida Dropsie, em que esses recursos são utilizados com outro propósito, ‘subordinados’ ao palco.]

A atuação dos atores é caricata a ponto de incomodar. Demorei a me sentir a vontade com essa proposta. Não sei se isso é uma característica do teatro chileno ou se do grupo que estava se apresentando.

Para piorar, parte do público achou aquilo tudo muito engraçado e se pôs a gargalhar, principalmente nas passagens mais dramáticas.

O fato de a peça ser falada em castelhano – afinal, o grupo é chileno – com a projeção das legendas, acentua a idéia de cinema.

Tantos recursos acabam limitando o espaço da imaginação e a composição própria a cada espectador. É uma concepção de teatro diferente, e muito nova para mim. Preciso de tempo para assimilar.

Gostei da peça – que, aliás, foi bastante fiel ao texto do Baricco. Mas não me senti no teatro.

"Quem tá gostando faz barulho"

E quem não está gostando faz o quê? Festa estranha com gente esquisita. Engraçado, até é. Mas só por 15 minutos. Depois disso já tenho vontade de ir embora.

Lugar lotado, empurrões, pisões nos pés, Sheila Carvalho, os passinhos da dança do "Tchan", suor, muito suor, e um tipo gritando "Quem tá gostando faz barulho"? Não, definitivamente, esse não é o meu tipo de programa.

Como disse uma amiga, o melhor da noite foi a sopa!

domingo, 5 de abril de 2009

SESC

Demorei, mas, enfim, descobri o SESC. A programação é ótima e os preços, bastante acessíveis.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Homenagem à uma amiga

Taxista nº1: André. Do aeroporto até Ipanema. Mudo, a princípio. Mas é só dar a deixa – ou seja, fazer uma pergunta qualquer – que ele destrava a língua. Descobri: que ele considera “ishcrota” uma senhora com mais de 70 anos usando calça fusô branca com tanguinha preta por baixo, mas acha muito legal ver um casal de velhinhos caminhando de mãos dadas em “Copa”. Que uma mania de São Paulo que não pegou no Rio de Janeiro foi o roubo de notebooks. Que uma mania de São Paulo que pegou no Rio de Janeiro foi a venda de chicletes pendurando saquinhos de plástico nos retrovisores dos carros que param nos sinais.

Taxista nº2: Esse não se apresentou. Também começou mudo, mas dei a deixa. Pronto. Ajeitou o espelhinho para poder falar olhando para mim. Depois puxou bem o banco do carona para me dar mais espaço. Desdobrou-se em gentilezas e sorrisos. Conversou comigo de Ipanema até a Gávea. Falou da construção da ponte Rio-Niterói e da história do Rio. Moço interessante.

[Interrupção da homenagem para um comentário de próprio punho: O conceito contemporâneo de servidão me incomoda. Do garçom, do taxista, do porteiro. Pessoas sem nome. História. Passado. Vontade. Expectativas. Temperamento. Prestam um serviço. Você paga por eles. Direta ou indiretamente. Gravitam ao nosso redor como se fossem invisíveis. Às vezes falam comigo e eu sequer escuto, distraída, como se eles fossem parte do cenário. Gosto de pessoas. De conhecer pessoas. Observar os que passam por mim. Não importa se trocaremos olhares, cumprimentos, palavras ou se apenas vamos compartilhar por alguns segundos o mesmo lote de ar atmosférico, poluído ou não. Quem sabe um virusinho qualquer. Minha história é construída instante a instante. A cada respiração.]

Taxista nº3: Uma rua perdida. Ninguém sabia onde ficava. Em nosso mapa simplificado, ela sequer aparecia. Mas escolhemos o taxista certo. Ou terá sido o contrário? Assim que mencionamos o nome da rua, ele abriu um sorriso largo. Conhecia. Devia ter um sessenta e tantos anos. Contou que trabalhou na Europa. Até na Rússia. Foi motorista de ônibus. Falou do filho, orgulhoso. Isso tudo apesar de um problema de audição denunciado pelo aparelhinho branco preso ao ouvido. Velhinho simpático.

Taxista nº4: Carioca não sabe caminho. Nem nome de rua. E – pasmem! – os taxistas se incluem nesse grupo. É a coisa mais engraçada (ou irritante – dependendo do dia) de se ver. Não conhecem as ruas, não sabem o caminho e sequer se preocupam com isso. Parece que, lá, essa obrigação cabe ao passageiro. Não usam GPS e não vi ninguém consultar um simples guia. Pegamos um táxi do Parque Lage até Santa Teresa. O taxista era um senhor mais velho e bem humorado. Depois de perguntar se sabíamos o caminho, deu uma risada divertida antes de declarar: “Pó dexá que nós chegamo lá. Três cabeças pensam melhor que uma”. Chegamos.

Taxista nº5: Foi o primeiro taxista que reclamou do rio. Da cidade, melhor dizendo. E foi o último com quem conversei, pois me levou da Lagoa até o Santos Dumont. Fiquei surpresa, afinal, no Rio de Janeiro, o maior elogio que um carioca pode fazer é “logo, logo a moça vira carioca”. Não esse taxista. Esse queria se mudar para Paraty. Está a uma semana de se aposentar. Quer viver no meio do mato, segundo ele. Naquele lugar mais lindo de se ver, segundo ele. Quem sou eu para discordar!