É difícil ser racional quando o tema é poesia. De que adianta admirar a originalidade do tema, o domínio da linguagem, a melodia, a fluidez do texto se essa poesia não te emociona? Se todas essas letras e palavras que se juntam não te comovem?
A poesia é passional. É relação a dois. Ela precisa tocar em algum ponto sensível e esquecido de si mesmo. Você precisa passar dias arrastando o livro de um lado para outro dentro de casa, na bolsa, espalhando papeizinhos para marcar os poemas que tem que reler, abrir uma página à toa e ler mais um antes de dormir, grifar uma palavra, uma frase, uma página – mas, a lápis, para não estragar o livro. É preciso espalhá-los pela cama.
Com o Carpinejar foi assim. Li uma poesia numa matéria de jornal, depois uma matéria assinada por ele numa revista. Peguei um livro dele para folhear, escolhi pela capa, numa livraria. Jurei que só ia olhar. Comprei. Li e adorei. Paciência. Não se pode negar a própria natureza!
Gosto da supremacia das idéias – aparente ou não – sobre o texto. Gosto das palavras simples e gosto do gosto das palavras.
Ficha Técnica: "Como no Céu / Livro de Visitas", de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.
domingo, 26 de outubro de 2008
Gaveta de papéis
Cada vez que leio, encontro algo novo. Da primeira vez, a curiosidade me fez ler tudo na mesma hora. É um livro pequeno e rápido. Terminei e fiquei perdida.
Comecei outra vez. Então com calma. Um poema por vez. Mentira, não consigo ler um por vez. Mas poucos por vez. Primeiro em pensamento, depois em voz alta. Sempre faço isso. Preciso ouvir o som das palavras.
Senti ciúme do poeta. Das viagens, dos amores, das emoções, sensações. Ciúme ou inveja. Difícil dizer. É bom partilhar das emoções alheias, extravasar, exorcisar as nossas nelas. Mas isso também me lembra da minha incapacidade de exorcisar as minhas próprias, sem escadas, sem muletas, fugas, escapatórias. O texto de Peixoto é uma espécie de vício.
Comecei outra vez. Então com calma. Um poema por vez. Mentira, não consigo ler um por vez. Mas poucos por vez. Primeiro em pensamento, depois em voz alta. Sempre faço isso. Preciso ouvir o som das palavras.
Senti ciúme do poeta. Das viagens, dos amores, das emoções, sensações. Ciúme ou inveja. Difícil dizer. É bom partilhar das emoções alheias, extravasar, exorcisar as nossas nelas. Mas isso também me lembra da minha incapacidade de exorcisar as minhas próprias, sem escadas, sem muletas, fugas, escapatórias. O texto de Peixoto é uma espécie de vício.
Rio das Flores
Fiel a minha fase “portuguesa”, acabo de ler “Rio das Flores”, de Miguel Sousa Tavares. Conheci o autor por acaso, mudando os canais da TV e dando com ele no Roda Viva. Foi assim que resolvi ler o livro. A história se passa entre Portugal e Brasil. O autor narra a história de uma família portuguesa, mais precisamente de dois irmãos, na primeira metade do século XX, no entre guerras.
Os personagens conquistam com facilidade, a narrativa flui como o rio do título. Dá para sentir o cheiro do ar. Do calor do Brasil. Do calor e do frio de Portugal. Da terra.
Irmãos que se amam apesar das diferenças. Que se decepcionam um com o outro, que não se compreendem, que assumem posições opostas na vida. E se amam. E são irmãos.
Há uma sensação de “pertencimento” que atravessa toda a obra. Dos personagens com a terra e das mulheres com os homens. Não se trata de amor. O amor é outra coisa. Mas sim de sentido, direção, diretriz, razão de ser. A relação homem-mulher no viés do macho e da fêmea, sem que isso signifique submissão ou humilhação ou simples apelo ao sexo. A eterna ânsia da completude. A noção e o reconhecimento dessa necessidade atávica, inata, fisiológica. E a sensualidade que perpassa os cenários, diálogos e corpos que se tocam ou não.
O modo como a história da família se contorce e se confunde com a historia de Portugal, do Brasil e do mundo é apaixonante. A vida, as decisões de cada um, o destino são induzidos, conduzidos, confundidos com a história de todos, de nações inteiras, de continentes e mundos. Separados e indissociáveis simultaneamente.
Há uma reflexão necessária nisso tudo. Quando os irmãos, assumindo posições opostas numa guerra deflagrada e buscada, se confrontam, não se pode recusar a similitude, a semelhança. A guerra é guerra por si só. Todos os lados são maus. Todos guerreiam. E lutar é lutar. Somos todos iguais nesse instante. A violência instala-se de lado a lado. Não há bem ou mal, mocinhos e bandidos. As atrocidades de um lado são ‘contrabalançadas’ pelas atrocidades do outro.
Engraçado o olhar português sobre o Brasil, muitas vezes carinhoso. Parece que eles se identificam mais com o Brasil do que o Brasil com eles. O Brasil como alegria. Sem o ranço, sem o peso, o cansaço, a tristeza e a idade da Europa. A juventude do Brasil. O país por descobrir. O tamanho, a largueza das fronteiras.
E, entre tantas alegrias e tristezas, amores e traições, a catarse: “Queres mesmo?” “Quero muito.” É preciso ler.
Os personagens conquistam com facilidade, a narrativa flui como o rio do título. Dá para sentir o cheiro do ar. Do calor do Brasil. Do calor e do frio de Portugal. Da terra.
Irmãos que se amam apesar das diferenças. Que se decepcionam um com o outro, que não se compreendem, que assumem posições opostas na vida. E se amam. E são irmãos.
Há uma sensação de “pertencimento” que atravessa toda a obra. Dos personagens com a terra e das mulheres com os homens. Não se trata de amor. O amor é outra coisa. Mas sim de sentido, direção, diretriz, razão de ser. A relação homem-mulher no viés do macho e da fêmea, sem que isso signifique submissão ou humilhação ou simples apelo ao sexo. A eterna ânsia da completude. A noção e o reconhecimento dessa necessidade atávica, inata, fisiológica. E a sensualidade que perpassa os cenários, diálogos e corpos que se tocam ou não.
O modo como a história da família se contorce e se confunde com a historia de Portugal, do Brasil e do mundo é apaixonante. A vida, as decisões de cada um, o destino são induzidos, conduzidos, confundidos com a história de todos, de nações inteiras, de continentes e mundos. Separados e indissociáveis simultaneamente.
Há uma reflexão necessária nisso tudo. Quando os irmãos, assumindo posições opostas numa guerra deflagrada e buscada, se confrontam, não se pode recusar a similitude, a semelhança. A guerra é guerra por si só. Todos os lados são maus. Todos guerreiam. E lutar é lutar. Somos todos iguais nesse instante. A violência instala-se de lado a lado. Não há bem ou mal, mocinhos e bandidos. As atrocidades de um lado são ‘contrabalançadas’ pelas atrocidades do outro.
Engraçado o olhar português sobre o Brasil, muitas vezes carinhoso. Parece que eles se identificam mais com o Brasil do que o Brasil com eles. O Brasil como alegria. Sem o ranço, sem o peso, o cansaço, a tristeza e a idade da Europa. A juventude do Brasil. O país por descobrir. O tamanho, a largueza das fronteiras.
E, entre tantas alegrias e tristezas, amores e traições, a catarse: “Queres mesmo?” “Quero muito.” É preciso ler.
sábado, 25 de outubro de 2008
Seda
Difícil escrever sobre Seda. Antes de mais nada, não sei dizer o que é. Um conto? Uma fábula?
É uma história. E isso basta. Uma história de amor. Não só o amor romântico, mas o amor amigo, companheiro. Pessoas que se importam e que cuidam umas das outras.
Um homem de negócios, bem sucedido, que entrega a sua vida aos caprichos da sorte. Ou, talvez, não se trate disso. Talvez a disputa não seja com a sorte, mas com si mesmo.
O senso dever e obediência, suplantado por uma paixão. Não por uma mulher, mas pelo desconhecido, pelo mundo talvez.
E, no final, o amor de uma mulher. Sempre o amor de uma mulher.
Ficha Técnica: "Seda" (2007), de Alessandro Baricco, Companhia das Letras
É uma história. E isso basta. Uma história de amor. Não só o amor romântico, mas o amor amigo, companheiro. Pessoas que se importam e que cuidam umas das outras.
Um homem de negócios, bem sucedido, que entrega a sua vida aos caprichos da sorte. Ou, talvez, não se trate disso. Talvez a disputa não seja com a sorte, mas com si mesmo.
O senso dever e obediência, suplantado por uma paixão. Não por uma mulher, mas pelo desconhecido, pelo mundo talvez.
E, no final, o amor de uma mulher. Sempre o amor de uma mulher.
Ficha Técnica: "Seda" (2007), de Alessandro Baricco, Companhia das Letras
domingo, 5 de outubro de 2008
Eleições 2008
Fim de semana de eleição. O máximo que pude cumprir do meu dever cívico foi justificar minha ausência. Ausência de interesse pelos debates dos candidatos na TV e nos jornais. Ausência de capacidade em confiar que o destino da cidade será melhor ou pior nas mãos deste ou daquele político. Ausência de vontade de brigar por mudanças. Ausência de paciência para filas. Ausência de arrependimento por ter votado em um ou outro.
A verdade é que não acredito que a política faça diferença. O governo é reflexo do que nós somos. Não acredito que alguma mudança possa ocorrer por meio de voto. Acho que qualquer mudança no governo virá sempre como conseqüência daquilo que somos como povo.
A verdade é que não acredito que a política faça diferença. O governo é reflexo do que nós somos. Não acredito que alguma mudança possa ocorrer por meio de voto. Acho que qualquer mudança no governo virá sempre como conseqüência daquilo que somos como povo.
domingo, 14 de setembro de 2008
A Eternidade e o Desejo
Ouvi Inês Pedrosa pela primeira vez na FLIP deste ano. Gostei e tive vontade de conhecer um pouco do seu trabalho. Comecei por “A Eternidade e o Desejo”.
O livro traz vários excertos dos sermões do Padre Antonio Vieira. São realmente impressionantes. Vale a pena ler e reler alguns desses trechos. E, às vezes, é preciso suspender a leitura do romance por alguns minutos para absorver esse primeiro impacto. Esse é o problema dos bons livros, quando você termina, sua lista de leituras está ainda maior. Preciso ler esses sermões.
Mas, voltando à Pedrosa e ao seu livro, mais uma vez o modo como os autores portugueses lidam com a língua me impressiona. A forma como a palavra sai das mãos de Clara para as de Sebastião e, deste, de volta para ela, é admirável. O modo como os diálogos são desenvolvidos também. Essa é uma marca do livro, a fluidez do texto. Natural, fácil e, ao mesmo tempo, construída com esmero, em detalhes.
Clara é a personagem central da trama. Cega, após levar um tiro, volta à cidade onde perdeu a visão para resgatar a si mesma. Essa cidade é Salvador, na Bahia. É interessante ver, através de Clara, a visão do estrangeiro em relação à Bahia.
Clara é insuportável. Áspera e rude com seu amigo, e insuportavelmente humana. Mas, dos dois, Sebastião é o que mais precisa de ajuda. Clara procura um caminho e tem coragem de seguir as pistas que encontra. Sebastião parece preso, empacado em algum lugar, incapaz de se mover.
E é a mulher quem define o destino de ambos. Não sei se pelo fato de a autora ser mulher ou se pelo fato de ser Inês Pedrosa – pelo pouco que sei e vi dela, estou convencida de que Inês é uma mulher de opinião forte.
A capa é um capítulo à parte. Simplesmente linda. Em primeiro plano, as fitinhas coloridas do senhor do Bonfim, iluminadas de sol. Ao fundo, a imagem desfocada do que parece ser um museu, um dos tantos mencionados ao longo do livro, em tons escuros e sóbrios.
É um livro pequeno e fácil de ler, com muito a acrescentar a quem se empenhe nele.
O livro traz vários excertos dos sermões do Padre Antonio Vieira. São realmente impressionantes. Vale a pena ler e reler alguns desses trechos. E, às vezes, é preciso suspender a leitura do romance por alguns minutos para absorver esse primeiro impacto. Esse é o problema dos bons livros, quando você termina, sua lista de leituras está ainda maior. Preciso ler esses sermões.
Mas, voltando à Pedrosa e ao seu livro, mais uma vez o modo como os autores portugueses lidam com a língua me impressiona. A forma como a palavra sai das mãos de Clara para as de Sebastião e, deste, de volta para ela, é admirável. O modo como os diálogos são desenvolvidos também. Essa é uma marca do livro, a fluidez do texto. Natural, fácil e, ao mesmo tempo, construída com esmero, em detalhes.
Clara é a personagem central da trama. Cega, após levar um tiro, volta à cidade onde perdeu a visão para resgatar a si mesma. Essa cidade é Salvador, na Bahia. É interessante ver, através de Clara, a visão do estrangeiro em relação à Bahia.
Clara é insuportável. Áspera e rude com seu amigo, e insuportavelmente humana. Mas, dos dois, Sebastião é o que mais precisa de ajuda. Clara procura um caminho e tem coragem de seguir as pistas que encontra. Sebastião parece preso, empacado em algum lugar, incapaz de se mover.
E é a mulher quem define o destino de ambos. Não sei se pelo fato de a autora ser mulher ou se pelo fato de ser Inês Pedrosa – pelo pouco que sei e vi dela, estou convencida de que Inês é uma mulher de opinião forte.
A capa é um capítulo à parte. Simplesmente linda. Em primeiro plano, as fitinhas coloridas do senhor do Bonfim, iluminadas de sol. Ao fundo, a imagem desfocada do que parece ser um museu, um dos tantos mencionados ao longo do livro, em tons escuros e sóbrios.
É um livro pequeno e fácil de ler, com muito a acrescentar a quem se empenhe nele.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Cemitério de Pianos
Neste último sábado, numa sala amarela, ouvi o autor de “Cemitério de Pianos” falar sobre seu livro. Da janela, um ipê carregado de flores amarelas completava o quadro.
José Luís Peixoto é português, tem 34 anos e é fã de heavy-metal, assim como parte da platéia ali reunida. Falou pouco mais de uma hora, num tom de voz manso que sempre me parece um pouco tímido. Falou do seu trabalho e da sua vida espelhada nele.
Cemitério de pianos conta a história de uma família. Três gerações de Franciscos Lázaros que se sucedem e se misturam. Os narradores se alternam a ponto de, muitas vezes, não sabermos mais quem é que nos conta a história.
A repetição dos nomes de uma geração para outra contribui para se criar essa ilusão, assim como o fato das respectivas mulheres não terem nomes próprios. Como se fosse sempre uma mesma história. Como se não fizesse diferença ser avô, pai ou filho.
Em vez de tentar agarrar-se à linha da narração, anotando nomes ou coisa parecida, melhor deixar a história fluir. É preciso confiar no autor e deixar que ele te conduza. Como naqueles desenhos 3D que escondem a verdadeira imagem numa repetição sem sentido de figuras. Você só encontra a imagem real se conseguir relaxar, mudar o foco da visão, aguardar que a figura surja.
O ponto de referência dessas histórias entrelaçadas, das histórias de cada um desses personagens ou, se preferir, desse único personagem, é uma oficina de carpintaria. Mais precisamente, uma sala dentro dessa oficina, um local onde estão empilhados dezenas de pianos em frangalhos, destruídos, irrecuperáveis - o “cemitério de pianos”, que dá título ao livro.
Um galpão empoeirado onde se acumulam carcaças, restos de pianos que nunca mais serão tocados. Pelo menos, não aqueles. Mas daqueles corpos de madeira sem vida sairá a peça que será usada para se fazer música novamente. O germe da música está ali, latente, esperando ser jogado em terreno fértil para germinar.
A música está presente o tempo todo, do piano do título, do som que sai do rádio logo na primeira cena – é a música que nos leva ao primeiro personagem – do cemitério de pianos, na alma de todos os Lázaros. Do que se apaixona pela moça da pensão ao qual é levado por um pianista, do que se apaixona pela própria pianista. Até o modo como amam é o mesmo, como se as cenas se repetissem.
Engraçado que, ao falar de seu livro, Peixoto refira-se à música só ao final, como se esse elemento não fosse assim tão forte. Mesmo durante a maratona, onde quase não ouvimos o som, mas apenas a torrente de palavras que correm na mente do personagem. Nessas passagens, a ausência da música é tão eloqüente quanto sua presença. Lembrando que a relação do autor com a música é muito forte, impossível evitar esse pensamento.
A música está presente no cemitério de pianos, impregnada no ar, transformada em algo concreto e palpável. E a paixão que ela inspira também. O Franciscos não apenas consertam pianos com o quem conserta um banco. Eles trazem a música de volta ao mundo, fazem nascer essa música, são apaixonados por ela. Há uma espécie de veneração a amarrar isso tudo.
E isso é reconhecido pelos personagens. O cemitério é trancado por anos, como que para impedir a música e o amor que vem com ela, indissociável, como se para apagar uma história, uma lembrança, uma dor. Ou será por ciúme? Ou por vingança? E enquanto o cemitério de pianos permanece trancado, a história segue suspensa, a espera. Só volta a fluir quando ele é de novo aberto. Então tudo recomeça. A mesma história uma e outra vez.
Peixoto lembrou das referências bíblicas. De Lázaro, que é ressuscitado por Cristo, como parece ressuscitar em seu filho, e no filho do seu filho e assim eternamente. De Marta e Maria, irmãs de Lázaro. De Simão, pai de Judas e também o leproso. Apontou a Bíblia como sendo forte referência em seu trabalho.
Exposição
Mas o que mais me chamou a atenção ao ouvir o autor neste sábado, e que acabei deixando para mencionar só ao final, foi seu comentário a respeito de uma das cenas do livro, tirada de uma cena real: a espera de um telefonema para comunicar a morte do seu pai. Essa era a pergunta que gostaria de fazer e não fiz. Como se dosa isso, essa exposição, essa relação obra e autor?
Peixoto parece tímido, mas desses tímidos corajosos e bem humorados que não se deixam intimidar com a própria timidez. Como se pode olhar para pessoas desconhecidas e falar sobre a morte do seu pai? Deve ser muito difícil lidar com essa imagem pública, com esse papel de autor. Especialmente quando se escreve.
Eu acredito que seja mais fácil conhecer um autor lendo seu trabalho do que falando com ele, convivendo com ele. Por isso, ainda me assusto com essa perspectiva de exposição, com essa falsa sensação de proximidade, de identificação.
Língua
Gosto do jeito como alguns autores portugueses lidam com a língua. É o caso do Peixoto. Invejo a confiança e a segurança. A proximidade. A intimidade. A liberdade com que subvertem as regras e moldam as palavras, as letras, os pontos e vírgulas. Não consigo evitar a idéia de que, afinal, a língua é deles antes de ser nossa. Nós herdamos. Para eles, é inata. Têm séculos de convívio antes de nós. Isso deve fazer diferença.
Controle
Em determinado momento, alguém fez algum comentário relacionando “Cemitério de Pianos” com outro livro do autor, na verdade, o primeiro a ser publicado, “Nenhum Olhar”. Peixoto fez um comentário ótimo a esse respeito. Lembrou que “Nenhum Olhar” foi escrito numa situação única, impossível de se resgatar ou repetir. O livro foi escrito sem a perspectiva de que seria lido, sem observadores.
Agora escreve sabendo que será lido, observado, comentado, analisado. Nunca mais um escritor num quarto sem janelas.
“Cemitério de Pianos” foi meu primeiro contato com a obra de José Luís Peixoto. Terminei e já li, em seguida, “Nenhum Olhar”. Também descobri que esses são os dois únicos livros dele publicados no Brasil. Uma pena.
José Luís Peixoto escreve prosa como se escrevesse poesia. Conheço pouco do trabalho dele, mas não há como evitar uma espécie de encantamento.
José Luís Peixoto é português, tem 34 anos e é fã de heavy-metal, assim como parte da platéia ali reunida. Falou pouco mais de uma hora, num tom de voz manso que sempre me parece um pouco tímido. Falou do seu trabalho e da sua vida espelhada nele.
Cemitério de pianos conta a história de uma família. Três gerações de Franciscos Lázaros que se sucedem e se misturam. Os narradores se alternam a ponto de, muitas vezes, não sabermos mais quem é que nos conta a história.
A repetição dos nomes de uma geração para outra contribui para se criar essa ilusão, assim como o fato das respectivas mulheres não terem nomes próprios. Como se fosse sempre uma mesma história. Como se não fizesse diferença ser avô, pai ou filho.
Em vez de tentar agarrar-se à linha da narração, anotando nomes ou coisa parecida, melhor deixar a história fluir. É preciso confiar no autor e deixar que ele te conduza. Como naqueles desenhos 3D que escondem a verdadeira imagem numa repetição sem sentido de figuras. Você só encontra a imagem real se conseguir relaxar, mudar o foco da visão, aguardar que a figura surja.
O ponto de referência dessas histórias entrelaçadas, das histórias de cada um desses personagens ou, se preferir, desse único personagem, é uma oficina de carpintaria. Mais precisamente, uma sala dentro dessa oficina, um local onde estão empilhados dezenas de pianos em frangalhos, destruídos, irrecuperáveis - o “cemitério de pianos”, que dá título ao livro.
Um galpão empoeirado onde se acumulam carcaças, restos de pianos que nunca mais serão tocados. Pelo menos, não aqueles. Mas daqueles corpos de madeira sem vida sairá a peça que será usada para se fazer música novamente. O germe da música está ali, latente, esperando ser jogado em terreno fértil para germinar.
A música está presente o tempo todo, do piano do título, do som que sai do rádio logo na primeira cena – é a música que nos leva ao primeiro personagem – do cemitério de pianos, na alma de todos os Lázaros. Do que se apaixona pela moça da pensão ao qual é levado por um pianista, do que se apaixona pela própria pianista. Até o modo como amam é o mesmo, como se as cenas se repetissem.
Engraçado que, ao falar de seu livro, Peixoto refira-se à música só ao final, como se esse elemento não fosse assim tão forte. Mesmo durante a maratona, onde quase não ouvimos o som, mas apenas a torrente de palavras que correm na mente do personagem. Nessas passagens, a ausência da música é tão eloqüente quanto sua presença. Lembrando que a relação do autor com a música é muito forte, impossível evitar esse pensamento.
A música está presente no cemitério de pianos, impregnada no ar, transformada em algo concreto e palpável. E a paixão que ela inspira também. O Franciscos não apenas consertam pianos com o quem conserta um banco. Eles trazem a música de volta ao mundo, fazem nascer essa música, são apaixonados por ela. Há uma espécie de veneração a amarrar isso tudo.
E isso é reconhecido pelos personagens. O cemitério é trancado por anos, como que para impedir a música e o amor que vem com ela, indissociável, como se para apagar uma história, uma lembrança, uma dor. Ou será por ciúme? Ou por vingança? E enquanto o cemitério de pianos permanece trancado, a história segue suspensa, a espera. Só volta a fluir quando ele é de novo aberto. Então tudo recomeça. A mesma história uma e outra vez.
Peixoto lembrou das referências bíblicas. De Lázaro, que é ressuscitado por Cristo, como parece ressuscitar em seu filho, e no filho do seu filho e assim eternamente. De Marta e Maria, irmãs de Lázaro. De Simão, pai de Judas e também o leproso. Apontou a Bíblia como sendo forte referência em seu trabalho.
Exposição
Mas o que mais me chamou a atenção ao ouvir o autor neste sábado, e que acabei deixando para mencionar só ao final, foi seu comentário a respeito de uma das cenas do livro, tirada de uma cena real: a espera de um telefonema para comunicar a morte do seu pai. Essa era a pergunta que gostaria de fazer e não fiz. Como se dosa isso, essa exposição, essa relação obra e autor?
Peixoto parece tímido, mas desses tímidos corajosos e bem humorados que não se deixam intimidar com a própria timidez. Como se pode olhar para pessoas desconhecidas e falar sobre a morte do seu pai? Deve ser muito difícil lidar com essa imagem pública, com esse papel de autor. Especialmente quando se escreve.
Eu acredito que seja mais fácil conhecer um autor lendo seu trabalho do que falando com ele, convivendo com ele. Por isso, ainda me assusto com essa perspectiva de exposição, com essa falsa sensação de proximidade, de identificação.
Língua
Gosto do jeito como alguns autores portugueses lidam com a língua. É o caso do Peixoto. Invejo a confiança e a segurança. A proximidade. A intimidade. A liberdade com que subvertem as regras e moldam as palavras, as letras, os pontos e vírgulas. Não consigo evitar a idéia de que, afinal, a língua é deles antes de ser nossa. Nós herdamos. Para eles, é inata. Têm séculos de convívio antes de nós. Isso deve fazer diferença.
Controle
Em determinado momento, alguém fez algum comentário relacionando “Cemitério de Pianos” com outro livro do autor, na verdade, o primeiro a ser publicado, “Nenhum Olhar”. Peixoto fez um comentário ótimo a esse respeito. Lembrou que “Nenhum Olhar” foi escrito numa situação única, impossível de se resgatar ou repetir. O livro foi escrito sem a perspectiva de que seria lido, sem observadores.
Agora escreve sabendo que será lido, observado, comentado, analisado. Nunca mais um escritor num quarto sem janelas.
“Cemitério de Pianos” foi meu primeiro contato com a obra de José Luís Peixoto. Terminei e já li, em seguida, “Nenhum Olhar”. Também descobri que esses são os dois únicos livros dele publicados no Brasil. Uma pena.
José Luís Peixoto escreve prosa como se escrevesse poesia. Conheço pouco do trabalho dele, mas não há como evitar uma espécie de encantamento.
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