quinta-feira, 23 de abril de 2009

Martha Medeiros - poesia

envelhecer, quem sabe
não seja assim tão desatroso
me interessa perder esta ansiedade
me atrai ser atraente mais tarde
um pouco mais de idade, que importa
envelhecer, quem sabe
não seja assim tão só

(“Poesia Reunida”, Martha Medeiros, pág. 12, L&PM Pocket)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A mulher que escreveu a Bíblia

Claro que o livro é divertido, é do Scliar. Não falta ironia. Aliás, transborda. E muita imaginação.

A história se passa na época do rei Salomão, num passado longínquo, mas a linguagem é atual, afinal, trata-se do relato de uma mulher moderna.

A feiúra como sina e móvel da personagem. A linguagem vulgar mais como prova da origem – marginal, alheia ao mundo letrado, à cultura – que indicador de agressividade.

E o fascinante universo feminino, a capacidade de se iludir sabendo que se ilude, a capacidade inesgotável de fantasiar, a capacidade – e coragem – para decidir, agir, correr riscos.

Ainda falando de mulheres, um único objetivo: encontrar o amor. Um homem, para ser mais exata. Tudo gira em torno disso.

E a Bíblia sendo escrita à custa de tesão, como moeda de troca para o sexo.

Ficha Técnica: "A mulher que escreveu a Bíblia", Moacyr Scliar, coleção de bolso da Companhia das Letras.

sábado, 18 de abril de 2009

Termostato

Nasci com o termostato queimado. Já reclamei para a minha mãe. Sei que meu pai teve participação nisso, mas ele não é sensível a apelos como esse. Por isso, só reclamei para a minha mãe. Pena que não exista peça para reposição.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Flip 2009: autores confirmados

- Alex Ross (americano)
- Anne Enright (irlandesa)
- Atiq Rahimi (afegão)
- Carlos Fuentes (mexicano)
- Catherine Millet (francesa)
- Chico Buarque
- Cristovão Tezza
- Gay Talese (americano)
- Richard Dawkins (britânico)
- Simon Schama (britânico)
- Sophie Calle (francesa)

Coração Andarilho

Tenho inveja da Nélida. De sua determinação em ser escritora. De como se preparou para isso. E de como perseverou, pois nem a determinação nem o preparo foram suficientes. Admiro.

A princípio, estranhei a linguagem. Soou antiga e um pouco antiquada aos meus ouvidos. Mas, em se tratando da autora, não dá para resistir muito tempo. Logo você já está ali, ao lado dela, acompanhando seus passos.

Ainda não li seus livros. Este foi o primeiro, mas é um livro especial, diferente dos outros. Pelo menos, ‘mais’ diferente. Já faz algum tempo quero ler “Vozes do deserto”. O único problema é que a fila de espera está longa demais. Cismei de ler os autores da FLIP deste ano. E, antes disso, havia cismado de ler os autores portugueses contemporâneos. E, entre uma cisma e outra, os autores brasileiros.

Muita cisma, pouco tempo. Muitos livros. Que bom!

Ficha Técnica: “Coração Andarilho”, Nélida Piñon, Ed. Record, 2009.

Canalha!

É o primeiro livro de crônicas do Carpinejar que leio. Mas acompanho seu blog, portanto, não houve grandes surpresas.

Ler Carpinejar é muito bom. Por mais divertido que seja, há sempre um convite velado à reflexão. Isso sem falar do lado voyer que ele desperta ao escancarar sua vida privada em espaço público. Engraçado que essa é a própria ‘definição’ de um blog. Pelo menos, uma delas: um diário na internet. Ainda assim, surpreende. Incomoda, muitas vezes. Constrange pelo outro e por ele. Mais do que tudo, porém, aproxima.

As crônicas são divertidas, mas não se comparam aos poemas. Como se as crônicas fossem um campo de exploração lúdico, uma espécie de válvula de escape para o turbilhão de emoções e pensamentos cotidianos – “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, nas palavras de Rubem Fonseca.

Mas é nos poemas que a alma se esconde. O corpo, nas crônicas. A alma, nos poemas. Continuo procurando sua alma.

Ficha Técnica: “Canalha!”, de Fabrício Carpinejar, Editora Bertrand Brasil.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Neruda: "Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Poema de Pablo Neruda)