Como seria? Você nunca parou para pensar o que haveria aí, no exato lugar em que está agora, há dez anos? Cem? Mil? Há séculos? O que estaria vendo? O que ou quem pisaria nesse mesmo chão? Haveria chão?
Em “Um deus passeando pela brisa da tarde”, o autor viaja no tempo até o século II, no início da era cristã. Imagina como um homem culto e bem nascido da sua época veria o surgimento dessa nova religião. E vai além. Especula sobre relações políticas e humanas em geral. A família e a sociedade. Principalmente, a sociedade.
Lúcio Valério Quíncio é um homem capaz, inteligente, íntegro. O que, obviamente, não lhe garante sucesso na vida. Como magistrado de Tarcisis, cidade da Lusitânia, durante o Império Romano, esforça-se em cumprir seu papel. Assume responsabilidades. Sacrifica-se. Mas falta a ele o senso prático que a sua mulher domina. Aliás, Mara é a personagem mais forte da história. Conhece seu papel e o cumpre com mais eficiência do que qualquer outro.
A religião surge como desequilíbrio, no sense, fanatismo. Válvula de escape ou tábua de salvação para os desvalidos da época. Uma visão crítica, certamente, porém convincente.
Mario de Carvalho sabe dosar as cores. É um bom alquimista. A leitura é fácil, envolvente. E ainda tem gente que perde tempo tentando inventar máquinas para viajar no tempo. Elas já existem e estão, literalmente, ao alcance das mãos.
Primeiro livro que li de Mario de Carvalho. Certamente, haverá outros.
Ficha técnica: “Um deus passeando pela brisa da tarde”, de Mario de Carvalho, Companhia das Letras, 2006.
domingo, 13 de dezembro de 2009
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Atirem no dramaturgo
E atiraram. Três tiros. Dois no torax. Coração e pulmão. Tudo bem. Ele falou que podiam atirar. Não disse que iria morrer. E não vai. Dramaturgo maluco!
domingo, 6 de dezembro de 2009
Poemas de Cecília Meireles
(Para Helga)
Canção Excêntrica
Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em numeros me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida.
(in "Vaga Música", 1942)
Canção Excêntrica
Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em numeros me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço
- do que faço, arrependida.
(in "Vaga Música", 1942)
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Tatuagens de parede
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto
Meu verso é sangue, volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorsos vãos...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca
- Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira
Encantamento
há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.
essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. Brilho, , montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.
há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra
pode começar o amor.
José Luís Peixoto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto
Meu verso é sangue, volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorsos vãos...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca
- Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira
Encantamento
há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.
essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. Brilho, , montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.
há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra
pode começar o amor.
José Luís Peixoto
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Aprender a rezar na era da técnica
Há dois tipos de homem sobre a terra: os que atacam e os que se defendem. Lenz Buchmann pertence ao primeiro grupo.
Perícia e habilidade marcam tanto o médico como o político. Assim como um código moral bastante peculiar, aparentemente herdado do pai.
O mundo, sob a ótica do personagem, divide-se entre fortes e fracos. Saúde e doença. Técnica. Natureza. Um mundo violento e agressivo. Como a doença que acomete a sua família. Contra a qual, nem defesa, nem ataque parecem surtir efeito.
“Aprender a rezar na era da técnica” é o último livro da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares. Fazem parte do conjunto: “Um homem: Klaus Klump” (2003), “A máquina de Joseph Walser” (2004) e “Jerusalém” (2006).
O que move o ser humano? O medo ou o desejo. Mas o que subjaz ao movimento? A natureza e a técnica travam seus duelos diários e eternos. Mas não há um equilíbrio de forças. Nunca haverá. A natureza não pode ser sobrepujada. Lenz Buchman domina a técnica e conhece a natureza. Não a subestima. Nem por isso consegue vencê-la.
A narrativa de Gonçalo M. Tavares é fresca e vigorosa. Não são as palavras que se enroscam e enlaçam umas as outras, mas imagens e idéias.
Nesse mundo, criado por Tavares, não há espaço para o amor. Pelo menos, não é ele que sustenta os personagens ou os coloca em movimento. Há desejo, admiração, respeito, desprezo, idolatria, compaixão, gratidão. Senso de dever e de honra. Senso de fatalidade.
A violência sobrepuja tudo e todos. Por isso O Reino é conhecido em Portugal como “os livros pretos” - aliás, a capa da edição portuguesa de “A máquina de Joseph Walser” é preta também, imagino que todos sejam.
Ficha Técnica: “Aprender a rezar na era da técnica”, de Gonçalo M. Tavares, Companhia das Letras (2008)
Perícia e habilidade marcam tanto o médico como o político. Assim como um código moral bastante peculiar, aparentemente herdado do pai.
O mundo, sob a ótica do personagem, divide-se entre fortes e fracos. Saúde e doença. Técnica. Natureza. Um mundo violento e agressivo. Como a doença que acomete a sua família. Contra a qual, nem defesa, nem ataque parecem surtir efeito.
“Aprender a rezar na era da técnica” é o último livro da tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares. Fazem parte do conjunto: “Um homem: Klaus Klump” (2003), “A máquina de Joseph Walser” (2004) e “Jerusalém” (2006).
O que move o ser humano? O medo ou o desejo. Mas o que subjaz ao movimento? A natureza e a técnica travam seus duelos diários e eternos. Mas não há um equilíbrio de forças. Nunca haverá. A natureza não pode ser sobrepujada. Lenz Buchman domina a técnica e conhece a natureza. Não a subestima. Nem por isso consegue vencê-la.
A narrativa de Gonçalo M. Tavares é fresca e vigorosa. Não são as palavras que se enroscam e enlaçam umas as outras, mas imagens e idéias.
Nesse mundo, criado por Tavares, não há espaço para o amor. Pelo menos, não é ele que sustenta os personagens ou os coloca em movimento. Há desejo, admiração, respeito, desprezo, idolatria, compaixão, gratidão. Senso de dever e de honra. Senso de fatalidade.
A violência sobrepuja tudo e todos. Por isso O Reino é conhecido em Portugal como “os livros pretos” - aliás, a capa da edição portuguesa de “A máquina de Joseph Walser” é preta também, imagino que todos sejam.
Ficha Técnica: “Aprender a rezar na era da técnica”, de Gonçalo M. Tavares, Companhia das Letras (2008)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
1
Na verdade, são oito. Oito livros de poesia reunidos num único volume: “Observações”, “Livro dos ossos”, “Atenas e a metafísica”, “Frio no Alaska”, “Homenagem”, “Explicações científicas e outros poemas”, “Autobiografia” e “Livro das investigações claras”.
Chamei de poesia só porque sou obediente e é o que está escrito na capa. É assim que o livro se apresenta. Mas o próprio autor diz não ser dos mais adeptos a classificações. Na verdade, cada vez mais se apregoa a inexistência de gêneros, o que acho ótimo. É bem mais divertido assim.
Os poemas de “1”, ou fragmentos de texto, ora provocam ora perturbam ora encantam. Há momentos embaraçosos nos quais você se vê descoberta em meio àquelas palavras. Como se ali revelassem um segredo só seu. Chega a dar raiva. Sorte que o autor não é meu vizinho.
Mas também há momentos que inspiram reflexão e ternura. Gosto, sobretudo, dos últimos.
Ficha Técnica: “1”, de Gonçalo M. Tavares, Bertrand Brasil (2005)
Chamei de poesia só porque sou obediente e é o que está escrito na capa. É assim que o livro se apresenta. Mas o próprio autor diz não ser dos mais adeptos a classificações. Na verdade, cada vez mais se apregoa a inexistência de gêneros, o que acho ótimo. É bem mais divertido assim.
Os poemas de “1”, ou fragmentos de texto, ora provocam ora perturbam ora encantam. Há momentos embaraçosos nos quais você se vê descoberta em meio àquelas palavras. Como se ali revelassem um segredo só seu. Chega a dar raiva. Sorte que o autor não é meu vizinho.
Mas também há momentos que inspiram reflexão e ternura. Gosto, sobretudo, dos últimos.
Ficha Técnica: “1”, de Gonçalo M. Tavares, Bertrand Brasil (2005)
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Alguns poemas de “1”, de Gonçalo M. Tavares
A Prova na poesia
Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.
(Pág. 83)
Vento
O mesmo que empurra o incêndio em direcção ao ser vivo frágil
que perdeu caminho e tempo de fuga,
empurra ainda o cheiro da amante para a casa do amado.
E não se trata de sinalizar o caminho umas vezes à bondade
outras à maldade,
a moral do vento é outra,
e está toda no modo como ele toca na água:
faz o que tem a fazer e parte.
(Pág. 116)
Pág. 197
Irreflectida nunca é a Primavera. A natureza inteira procede como o predador: escondida atrás de algo prepara-se para surgir na hora certa. A Primavera aterra como os aviões acidentados, mas o que resulta não é negro.
Pág. 205
Nem sempre os dias obedecem a fórmulas. Na cidade, com intervalo de meia hora, os melhores dedos contam diamantes e tocam nos seios da mulher que amam. Os ossos são múltiplos e, apesar de escondidos, tornam semelhantes entre si os cidadãos saudáveis. Mas o tráfico mais perseguido em certos edifícios públicos é o dos segredos. O homem rodopia atrás dos acontecimentos e é editado, como um livro, pelo trabalho que aceitou. Atirado és para o mundo pelas ordens a que obedeces.
Poemas extraídos de “1”, de Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil.
Queres acreditar?
Nenhuma garantia basta.
Por exemplo: não há narrativas
que levem a prescindir
da proximidade do mar.
O mar é material: exige a tua presença.
Também assim com a poesia.
Como um peregrino:
vai rápido ver o verso.
(Pág. 83)
Vento
O mesmo que empurra o incêndio em direcção ao ser vivo frágil
que perdeu caminho e tempo de fuga,
empurra ainda o cheiro da amante para a casa do amado.
E não se trata de sinalizar o caminho umas vezes à bondade
outras à maldade,
a moral do vento é outra,
e está toda no modo como ele toca na água:
faz o que tem a fazer e parte.
(Pág. 116)
Pág. 197
Irreflectida nunca é a Primavera. A natureza inteira procede como o predador: escondida atrás de algo prepara-se para surgir na hora certa. A Primavera aterra como os aviões acidentados, mas o que resulta não é negro.
Pág. 205
Nem sempre os dias obedecem a fórmulas. Na cidade, com intervalo de meia hora, os melhores dedos contam diamantes e tocam nos seios da mulher que amam. Os ossos são múltiplos e, apesar de escondidos, tornam semelhantes entre si os cidadãos saudáveis. Mas o tráfico mais perseguido em certos edifícios públicos é o dos segredos. O homem rodopia atrás dos acontecimentos e é editado, como um livro, pelo trabalho que aceitou. Atirado és para o mundo pelas ordens a que obedeces.
Poemas extraídos de “1”, de Gonçalo M. Tavares, Editora Bertrand Brasil.
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