segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Trecho de “Morreste-me”, de José Luís Peixoto
sábado, 29 de agosto de 2009
Meu irmão é filho único / Caos calmo / Em busca da vida
Meu irmão é filho único
Não sei dizer como se formam os laços de família. Talvez com as facas sujas de manteiga que passam de mão em mão em manhãs esquecidas e distantes. Mas sei que se manifestam. Nos momentos mais inesperados. Nas formas mais absurdas. Improváveis.
Risíveis e trágicos.
Laços visíveis e invisíveis.
Impossível romper.
Caos Calmo
Caos e calmaria. Sei que não combinam. Pelo menos, a princípio. Pois, neste filme, ambos se encaixam perfeitamente bem. Após a morte repentina da esposa, um homem se vê ‘sozinho’ com a filha. Como se tivesse sido transportado para um outro universo. Nada mudou ao seu redor. Tudo segue como sempre. Os móveis da casa. O escritório. Os amigos, o irmão. A praça em frente à escola da filha. Ainda assim, um outro mundo.
Simplesmente porque ele escolhe reconhecer a presença de pessoas, objetos, emoções, expectativas, medos, dores, inseguranças, cores que não havia identificado antes, embora já estivessem ali.
Não há elemento novo. Apenas uma supressão.
Um filme delicado.
Em busca da vida
Uma mulher à procura do marido que não dá notícias há 2 anos. Um homem à procura da esposa que fugiu há 16, levando a filha.
Em busca da vida conta a história desses dois personagens e sua procura. O que buscam exatamente? Não sei. Um sentido, explicação, satisfação, acerto de contas, vingança, reencontro, resposta? Ou a vida do título?
Sempre me surpreendo com esses vislumbres da cultura oriental. Eles me fazem lembrar do quanto estamos impregnados da nossa própria cultura. O que chamamos de natureza humana, muitas vezes, é apenas mais uma manifestação cultural.
Amor, honra, bondade, piedade, justiça. O que significam, afinal?
Um filme triste. Mas, disso, eu já sabia.
A cidade das sombras
Mundo paralelo, lado B, planeta bizarro, underground. Não, subterrâneo não. Afinal, eu me refiro ao mundo das sombras. Estamos, portanto, na superfície. E caminhamos debaixo do sol.
Aos nossos pés, elas se espalham. As sombras. As nossas. Olho para a minha. Acorrentada aos saltos dos meus sapatos, parece querer escapar. Não sempre, às vezes.
Não vejo seus olhos. Em que direção seguem? Será que está entretida com alguma outra sombra que cruzou nosso caminho sem que eu tivesse notado? Será que reparou na sombra daquele corpo que, definitivamente, chamou minha atenção?
A verdade é que as sombras têm vida própria. Nós as arrastamos por aí, ao nosso bel-prazer. Mas não as temos sob controle.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Inveja dos Anjos
A cidade é pequena. Cortada pela linha do trem. As histórias são reais. Ou poderiam ser. Dramas humanos - pequenos e grandes. Corriqueiros. Repetidos. E mais dramáticos por isso.
No final, a culpa é do amor. Como sempre. Sempre isso. Entre pais e filhos. Entre homens e mulheres. Entre amigos. E anjos.
A montagem da peça é ótima. Ajuda a impulsionar a história, ampara os personagens, constrói ilusões, estimula a imaginação. A linha do trem atravessa o palco e corta a cena, literalmente, de cima a baixo.
Suporta o humor duro e cínico de Cecília. A bondade licorosa de Eleazar. A sedução e magia do cafajeste de plantão, Rocco. Um pai e uma filha que se perdem e se encontram ao mesmo tempo.
Onde os anjos entram nisso? Na inveja. Há, nessa história, um homem que tem inveja dos anjos porque queria, ele também, voar invisível pelo mundo tornando a vida das pessoas menos dura. É o carteiro que lê as cartas antes dos seus destinatários e atrasa a entrega das notícias ruins para prepará-los.
Mistura de amargo e doce. Sonho e realidade. Que, ao mesmo tempo que aponta para a dureza da vida, torna mais fácil suportá-la.
Se você não acredita em anjos, devia assistir essa peça.
Ficha técnica: "Inveja dos Anjos". Direção: Paulo de Moraes. Com Marcelo Guerra, Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Simone Mazzer e outros. Texto: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes. De 7 a 30 de agosto. Sesc Consolação - Rua Dr. Vila Nova, 245, Consolação, São Paulo.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Desperdício x Dissipação
Mas sou a favor da dissipação. Deixar que tudo transborde, transpire pelos poros, expire pela boca num suspiro, pelo nariz, pelos ouvidos, pelos olhos, pelo corpo inteiro.
Sublime e se perca no ar.
E se dissipe em ondas.
Sem objetivo ou razão.
Sem intuito.
Pelo prazer de existir.
Uma ode pela vida que persiste apesar de...
Pela vida.
Quem sabe até onde chegarão?
Coisas do Quiroga
(Estadão - 26/08/09)
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
A alma imoral
Outro dia, numa conversa, alguém disse que eu estava confundindo espiritualidade com religiosidade. O comentário veio a calhar. Tenho certo preconceito com religiões em geral. Com isso, acabei suprimindo coisas demais na minha vida, generalizando. Exagerei no ceticismo. Sufoquei o espírito, com o qual, agora, tento me reconciliar.
Talvez por isso o livro de Bonder tenha me feito bem. Surgiu no momento certo. A ideia de honrar rompimentos, tanto quanto compromissos. O imperativo da mudança e os riscos inerentes a ela.
Para ser sincera, não gosto da forma como o autor escreve. O descuido com a linguagem, muitas vezes, compromete a clareza do texto. E há erros que mesmo uma revisão negligente teria identificado. Isso dificulta um pouco a leitura do livro, o qual, pelos temas que trata e pela abordagem que adota, já não seria, por si só, fácil de compreender.
Ainda assim, despertou em mim uma vontade enorme de conhecer a cabala.
É livro para ser lido aos goles. Colhendo frases de acordo com a necessidade do momento. Sem pressa. Para mim, uma espécie de 'autoajuda espiritual'. (E eu abomino livros de autoajuda.)
Recomendo a leitura!
Ficha técnica: "A alma imoral", de Nilton Bonder, Editora Rocco (1998)