domingo, 26 de julho de 2009

Os ‘mano’ sem as ‘mina’

Confesso que estranhei. Uma dança sem música. Como sonoplastia, o rangido estridente dos tênis com suas solas de borracha contra o piso do palco, as batidas de pés e respirações ofegantes. E os movimentos? Inesperados, para dizer o mínimo.

Ao meu lado, minha amiga, trinta anos mais nova, estava à beira de um ataque de risos, sufocado apenas pelo olhar da mãe. Mas também tive vontade de rir. Aos poucos, o desconforto se desfez e deu lugar ao choque.

O trabalho de Bruno Beltrão/Grupo de Rua é realmente impressionante. Força, violência, agilidade, luzes, choques, marginalidade, energia. Um show de testosterona. Fiquei embasbacada. Vale a pena conhecer – e acompanhar – o trabalho dessa turma.

[Domingo, dia 19]

Os reis preguiçosos


Foi a primeira vez que vi o museu do Ipiranga a noite. Todo iluminado. Só essa imagem já valeu o programa. Mas houve muito mais. A apresentação da companhia francesa “Transe Express” foi inusitada e divertida. Com direito a carros alegóricos, cortejos, acrobacias, músicas, fumaça e muita imaginação e engenhosidade.Eu não sabia direito para onde olhar, que trajeto seguir ou o que fazer. Tudo era novidade. Adorei.

Para completar, uma noite quente e agradável, em ótima companhia.

[Sábado, dia 18/07]

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sophie Calle

Fui ver a exposição da Sophie Calle no domingo passado. Saí de lá com a certeza de que Sophie Calle só podia ser mulher. E que apenas mulheres poderiam participar de um projeto como esse. Comportamento típico do universo feminino: aproveitar a história alheia para expurgar sua própria dor.

Ninguém gosta de ser dispensada, claro. Ainda mais mulheres tão lindas, interessantes e bem resolvidas – como nós – por caras que nunca chegam aos nossos pés e que deveriam dar graçasadeus por termos demonstrado algum interesse por eles.

O pior é que a moda agora é ser covarde: vale tudo para se livrar do enrosco, menos uma conversa franca e direta. No caso de Sophie, a opção foi pelo e-mail. Mas o simples desaparecimento também está em alta. Você não tem sequer a oportunidade de dizer um palavrão ou de fingir que não está nem aí para ele.

Então aparece alguém – não qualquer pessoa, mas uma artista conceituada – e lhe dá a oportunidade roubada, ou seja, a chance de se manifestar. Mais ainda, de tornar pública essa manifestação. O mulherio soltou o verbo.

Já imaginou o inverso? Um homem toma um fora da namorada por e-mail. Ele perde o rumo e resolve dar a volta por cima, convertendo sua decepção e dor em arte. Entra em contato com 107 homens e pede a eles que interpretem o e-mail de rompimento. Quantos desses homens vocês acham que responderiam? Na verdade, acredito que ele não conseguisse chegar nem no nº 2. O primeiro já iria dizer algo como “deixa de ser corno e arranja outra logo, Zé Mané!”. Os homens são mesmo insensíveis.

Mas vale a pena visitar a instalação de Sophie Calle no SESC Pompéia. Exageros à parte, essa parece ser uma boa oportunidade para conhecer um pouco do trabalho da artista, que não ganhou fama por acaso.

Algumas manifestações são realmente hilárias, como a da adolescente que se manifesta via sms: “Esse cara se acha!”. Gostei também da carta assinada pela escritora Christine Angot e, especialmente, do conselho da mãe de Sophie, na linha do ‘não faça tanto drama, minha filha / linda e inteligente, como você é, logo arranja outro melhor’.

Mas a melhor de todas, e que de longe resume bem esse imbróglio, foi a da menina de 9 anos, que, ao final, declara algo como ‘isso é muito triste’. Ela tem razão. É triste mesmo.

Prenez soin de vous!

SOPHIE CALLE _ CUIDE DE VOCÊ : Como parte da programação do Ano da França no Brasil, a Associação Cultural Videobrasil e SESC São Paulo trazem para São Paulo uma das figuras mais instigantes da cena artística internacional, a francesa Sophie Calle. O SESC Pompeia apresenta sua exposição "Cuide de você" (Prenez Soin de Vous), com uma programação que conta com extensa grade de atividades educativas.
SESC Pompéia, de 11/07 a 07/09. Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos e feriados, das 10h às 20h.

domingo, 19 de julho de 2009

Lulas comedoras de gente



A julgar pela nota publicada no Estadão deste último sábado, a Califórnia virou palco de um filme de terror trash: lulas gigantes, agressivas e carnívoras estão à solta por lá...
Nada como um texto bem editado...




sábado, 18 de julho de 2009

Coisas do Quiroga

“É impossível deixar de perceber que a cada atitude correta acontece uma série de respostas adversas. Contudo, não se deve tomar isso como sinal de se ter cometido algum erro, mas a constatação de se estar no caminho certo.”

(Estadão - 18/07/09)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Poesia e Guerra



Somos mesmo muito ignorantes. Fui ouvir Atiq Rahimi no Stand-Up de Literatura do Cronópios, na Martins Fontes (quem quiser obter mais informações sobre esses eventos deve acessar o site do Cronópios – http://www.cronopios.com.br/). E me surpreendi quando ele falou do papel da poesia na vida do povo afegão.

A presença da poesia é tão forte que se manifesta até em brincadeiras de crianças. Formam-se dois times. O desafio de um é declamar um verso usando a última palavra do verso declamado pelo time adversário. E assim vai a disputa até que o grupo derrotado fique sem palavras.
Quando criança, Atiq participava desse jogo. Os melhores jogadores, cuja presença era disputada pelos grupos, eram aqueles que conseguiam decorar um número maior de versos. O autor se lembra de um menino que sabia quase 15 mil versos decor.

Essa imagem não combina com a de um país miserável, cruel, beligerante, insensível, intolerante. Pelo menos, não com a versão rasa que é vendida nos jornais e nas bancas de revista. Como um povo que ama a poesia pode viver em meio à guerra e à violência?

Acho que essa é a maior ignorância de todas. Achar que o amor às coisas belas afasta alguém da guerra ou da violência. A questão não é do que se gosta, mas sim do que somos capazes de fazer para conseguir aquilo que desejamos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A aliança

aliança derretida fundida liquefeita
o símbolo do amor eterno, da união perfeita
sem começo
sem fim
a frieza do metal não ama e não sente
a frieza do metal é que celebra os casamentos

Quanto de fogo é preciso para derreter o metal?

Quanto de fogo é preciso para quebrar um pacto?