“Você não precisa de passes mágicos para garantir ajuda e orientação do mundo espiritual. O único que você precisa é de um coração ardente que eleve uma oração alegre e sincera ao céu. Fácil dizê-lo, difícil fazê-lo.”
(Estadão - 11/07/09)
sábado, 11 de julho de 2009
sexta-feira, 10 de julho de 2009
FLIP no Cronópios
Links para textos meus sobre a Flip, publicados no Cronópios:
Contagem regressiva para a Flip
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3999
Segredos de família
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4037
O alumbramento de uma longa vida provisória
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4068
Mulheres invisíveis
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4072
Tudo acaba
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4075
Contagem regressiva para a Flip
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3999
Segredos de família
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4037
O alumbramento de uma longa vida provisória
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4068
Mulheres invisíveis
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4072
Tudo acaba
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=4075
quinta-feira, 9 de julho de 2009
FLIP 2009 - Autores
Davi Arrigucci Jr.
É sempre bom ouvir alguém falar com paixão. Seja sobre que assunto for. Ainda mais, literatura. Especialmente Manuel Bandeira.
Rafael Coutinho
Extrovertido e simpático. Pelo visto, eclético também. Artista plástico e quadrinista. Muito à vontade com o público, arrancou risos da platéia com a leitura do seu trabalho. Contraste: a alegria e descontração do momento com a tensão, melancolia e soturnidade da história apresentada por ele.
Rodrigo Grampá
Dos quatro quadrinistas presentes, o que mais parecia ter consciência/ciência do palco. Jeito de menino prodígio. Um pouco na defensiva. Por sorte, estava entre amigos. O trabalho apresentado por ele me fez lembrar de “Kill Bill”. Justo eu, que nunca assisti ao filme...
Rafael Moon
Tímido participativo. Simples, direto, simpático. A delicadeza de forma como a história é contada realmente impressiona. Mas, aqui, é preciso lembrar que o trabalho é a quatro mãos. Rafael trabalha com seu irmão, Gabriel.
Gabriel Bá
Mas retraído. Parece levar tudo um pouco a sério demais. Mas isso é só uma impressão, claro. Além da delicadeza, a ‘perfeição’ dos traços encanta os olhos. Mas ‘perfeição’ não é a melhor palavra para descrever o desenho. São linhas que cortam.
Os Gêmeos
Uma entidade à parte. Rafael Moon e Gabriel Bá são gêmeos. E é assim que todos se referem a eles. Muito esquisito. Já na abertura da mesa, Flavio Moura, diretor de programação da FLIP, fez confusão com os nomes dos dois. Depois disso, num certo momento da conversa, o mediador (Joca Reiners Terron) disse algo como “agora que os gêmeos já responderam, qual é a opinião de vocês sobre...”. O ‘detalhe’ é que apenas um deles havia falado. Mais um ponto que não dá para deixar de mencionar: ambos desenham a si mesmos nos quadrinhos, ou seja, são seus próprios personagens.
Simon Schama
Confesso que a performance de palco do historiador-escritor-ator me desconcertou. Mal consegui acompanhar sua fala. Gostei mesmo foi da mediadora, Lilia Moritz Schwarcz.
Catherine Millet
Mais uma francesa trabalhando no limite entre vida e ficção, autoria e protagonismo. Como Sophie Calle. E também como o escritor argelino Gregoire Bouillet, que transforma suas experiências em relatos. O engraçado é que, quanto mais eles parecem se aproximar do que chamaríamos de “vida real”, mais parecem se distanciar dela. Criam uma espécie de ilusão de óptica em palavras.
Gay Talese
Figura impecável. Terno e chapéu. Na verdade, fato. Acho que fato é melhor do que terno neste caso. Filho de alfaiate. Meticuloso e sério. De um humor sem risadas nem sorrisos. Imagino Talese como uma antena que gira em todas as direções captando sons, ruídos, trechos de conversas. Imagino Talese como um arquivista meticuloso. Registrando o material coletado, catalogando. Até que, por combustão espontânea, algo se incendeia em sua mente e desencadeia todo o processo. Como um cão perdigueiro, segue sua pista até o final.
Angélica Freitas
“É difícil responder essa pergunta. Posso ler um poema do Bandeira que eu separei para vocês?” A participação da poeta na conversa não foi exatamente marcante, mas o pouco que leu do seu trabalho - que eu não conhecia - despertou meu interesse. Quero ler seus poemas.
Heitor Ferraz
Parecia pouco à vontade no palco, mas o mesmo poderia ser dito de Angélica e do mediador (Carlito Azevedo) da mesa de poesia, que também contou com Eucanaã Ferraz. Acho engraçada essa ‘timidez’ excessiva dos poetas se comparada à emoção escancarada dos versos. Não consigo imaginar exposição maior que essa... Talvez, por isso. (Os poetas fingidores fingem sempre ser eles mesmos. Essa é a minha tese.)
Eucanaã Ferraz
Na linguagem feminina contemporânea, um ‘fofo’. Depoimento encantador sobre sua formação. O papel da música popular. As canções da mãe. O acesso aos livros possibilitado pela escola pública. A questão do ensino. E a leitura memorável de um poema de Bandeira. Seu nome já estava na minha lista de autores a conhecer. Subiu mais alguns degraus no ranking de prioridades.
Bernardo Carvalho
Já ouvi Bernardo Carvalho em outras ocasiões. Sempre tenho a impressão de que ele gosta de discordar. Quando não do conteúdo, da forma. Crítico por natureza e profissão. Gosto do trabalho dele e de ouvi-lo falar. Seus comentários, independentemente do modo como professados, são pertinentes. Quer eu concorde com eles ou não. Além disso, realmente me divirto com as reações que ele provoca na platéia!
Atiq Rahimi
Exótico, claro. Começando pelo currículo: escritor e cineasta afegão, radicado em Paris, ganhador do prêmio Goncourt, o mais prestigiado prêmio literário francês. Quantas pessoas você conhece com esse perfil? E que diabo é o Afeganistão? Depois dessa onda de livros melodramáticos e apelativos (sejam eles bem intencionados ou não, agradáveis de se ler ou não), impossível não ter uma visão distorcida do país e do seu povo. Somem-se a isso as reportagens de jornais, monotemáticas e parciais. A verdade é que o rótulo do exotismo quase sempre deturpa e deforma. O jeito é ler mais. E melhor.
É sempre bom ouvir alguém falar com paixão. Seja sobre que assunto for. Ainda mais, literatura. Especialmente Manuel Bandeira.
Rafael Coutinho
Extrovertido e simpático. Pelo visto, eclético também. Artista plástico e quadrinista. Muito à vontade com o público, arrancou risos da platéia com a leitura do seu trabalho. Contraste: a alegria e descontração do momento com a tensão, melancolia e soturnidade da história apresentada por ele.
Rodrigo Grampá
Dos quatro quadrinistas presentes, o que mais parecia ter consciência/ciência do palco. Jeito de menino prodígio. Um pouco na defensiva. Por sorte, estava entre amigos. O trabalho apresentado por ele me fez lembrar de “Kill Bill”. Justo eu, que nunca assisti ao filme...
Rafael Moon
Tímido participativo. Simples, direto, simpático. A delicadeza de forma como a história é contada realmente impressiona. Mas, aqui, é preciso lembrar que o trabalho é a quatro mãos. Rafael trabalha com seu irmão, Gabriel.
Gabriel Bá
Mas retraído. Parece levar tudo um pouco a sério demais. Mas isso é só uma impressão, claro. Além da delicadeza, a ‘perfeição’ dos traços encanta os olhos. Mas ‘perfeição’ não é a melhor palavra para descrever o desenho. São linhas que cortam.
Os Gêmeos
Uma entidade à parte. Rafael Moon e Gabriel Bá são gêmeos. E é assim que todos se referem a eles. Muito esquisito. Já na abertura da mesa, Flavio Moura, diretor de programação da FLIP, fez confusão com os nomes dos dois. Depois disso, num certo momento da conversa, o mediador (Joca Reiners Terron) disse algo como “agora que os gêmeos já responderam, qual é a opinião de vocês sobre...”. O ‘detalhe’ é que apenas um deles havia falado. Mais um ponto que não dá para deixar de mencionar: ambos desenham a si mesmos nos quadrinhos, ou seja, são seus próprios personagens.
Simon Schama
Confesso que a performance de palco do historiador-escritor-ator me desconcertou. Mal consegui acompanhar sua fala. Gostei mesmo foi da mediadora, Lilia Moritz Schwarcz.
Catherine Millet
Mais uma francesa trabalhando no limite entre vida e ficção, autoria e protagonismo. Como Sophie Calle. E também como o escritor argelino Gregoire Bouillet, que transforma suas experiências em relatos. O engraçado é que, quanto mais eles parecem se aproximar do que chamaríamos de “vida real”, mais parecem se distanciar dela. Criam uma espécie de ilusão de óptica em palavras.
Gay Talese
Figura impecável. Terno e chapéu. Na verdade, fato. Acho que fato é melhor do que terno neste caso. Filho de alfaiate. Meticuloso e sério. De um humor sem risadas nem sorrisos. Imagino Talese como uma antena que gira em todas as direções captando sons, ruídos, trechos de conversas. Imagino Talese como um arquivista meticuloso. Registrando o material coletado, catalogando. Até que, por combustão espontânea, algo se incendeia em sua mente e desencadeia todo o processo. Como um cão perdigueiro, segue sua pista até o final.
Angélica Freitas
“É difícil responder essa pergunta. Posso ler um poema do Bandeira que eu separei para vocês?” A participação da poeta na conversa não foi exatamente marcante, mas o pouco que leu do seu trabalho - que eu não conhecia - despertou meu interesse. Quero ler seus poemas.
Heitor Ferraz
Parecia pouco à vontade no palco, mas o mesmo poderia ser dito de Angélica e do mediador (Carlito Azevedo) da mesa de poesia, que também contou com Eucanaã Ferraz. Acho engraçada essa ‘timidez’ excessiva dos poetas se comparada à emoção escancarada dos versos. Não consigo imaginar exposição maior que essa... Talvez, por isso. (Os poetas fingidores fingem sempre ser eles mesmos. Essa é a minha tese.)
Eucanaã Ferraz
Na linguagem feminina contemporânea, um ‘fofo’. Depoimento encantador sobre sua formação. O papel da música popular. As canções da mãe. O acesso aos livros possibilitado pela escola pública. A questão do ensino. E a leitura memorável de um poema de Bandeira. Seu nome já estava na minha lista de autores a conhecer. Subiu mais alguns degraus no ranking de prioridades.
Bernardo Carvalho
Já ouvi Bernardo Carvalho em outras ocasiões. Sempre tenho a impressão de que ele gosta de discordar. Quando não do conteúdo, da forma. Crítico por natureza e profissão. Gosto do trabalho dele e de ouvi-lo falar. Seus comentários, independentemente do modo como professados, são pertinentes. Quer eu concorde com eles ou não. Além disso, realmente me divirto com as reações que ele provoca na platéia!
Atiq Rahimi
Exótico, claro. Começando pelo currículo: escritor e cineasta afegão, radicado em Paris, ganhador do prêmio Goncourt, o mais prestigiado prêmio literário francês. Quantas pessoas você conhece com esse perfil? E que diabo é o Afeganistão? Depois dessa onda de livros melodramáticos e apelativos (sejam eles bem intencionados ou não, agradáveis de se ler ou não), impossível não ter uma visão distorcida do país e do seu povo. Somem-se a isso as reportagens de jornais, monotemáticas e parciais. A verdade é que o rótulo do exotismo quase sempre deturpa e deforma. O jeito é ler mais. E melhor.
A hora do Lobo
Alex Ross, Sophie Calle e Gregoire Bouillier, Anne Enright e James Salter, Gay Talese e António Lobo Antunes. Essas foram as atrações deste sábado.
Ross, crítico de música erudita na revista New Yorker, falou de seu livro “O resto é ruído”. Lembrou de uma época em que os grandes concertos eram acontecimentos. Em que o público reagia ao que via e ouvia, tomava partido, tinha opinião. Havia tumulto. Os compositores eram celebridades. Tive saudade desse tempo que não conheci. Hoje, arrisca o próprio autor, as pessoas têm medo de se manifestar: “não queremos estar do lado errado da história”. Uma pena.
Sophie e Gregoire, na primeira aparição pública conjunta, falaram do trabalho dela. Sophie, após receber um e-mail de Gregoire rompendo o relacionamento que mantinham, pediu a 107 mulheres que analisassem a mensagem. Com esse material, construiu seu trabalho, intitulado “Prenez soin de vous”, frase de despedida utilizada pelo ex-namorado.
Apesar do visível nervosismo de ambos, o debate rendeu bons momentos. O suficiente para se conhecer melhor o trabalho de Sophie, difícil de classificar. (Por aqui, ela foi apresentada como sendo uma “artista conceitual”, seja lá o que isso signifique.) Mas muito pouco se falou da obra de Gregoire, escritor francês de origem argelina, que, certamente, merecia atenção.
Anne Enright e James Salter, com a mediação de Liz Calder, presidente da FLIP, falaram de seus respectivos trabalhos. Salter, escritor americano, substituiu Tobias Wolff, cujo trabalho, aparentemente, apresenta mais pontos de contato com Enright, escritora irlandesa, vencedora do Booker Prize de 2007 com o livro “O Encontro”. Com isso, a unidade da mesa acabou se perdendo. Não houve grande interação, mas sim a apresentação do trabalho de um e de outro.
Gay Talese, mestre do jornalismo literário americano, sempre impecável, foi o próximo a subir ao palco. Quem chegou a Paraty já na quarta-feira, certamente teve a oportunidade de vê-lo caminhando pela cidade, sempre de terno e chapéu. Coube a Mario Sergio Conti, com muita sutileza, conduzir a conversa. Talese se estendeu nas respostas, caprichando nos detalhes. Consultou o relógio a cada nova pergunta, controlando ele mesmo a duração da entrevista. Falou do seu bastante controvertido método de trabalho, da sua infância, dos livros publicados e do livro que está desenvolvendo agora, onde analisa seu próprio casamento.
Para encerrar a noite, Humberto Werneck recebeu o escritor português Lobo Antunes. Foi um sucesso. A empatia logo estabelecida entre entrevistador e entrevistado e a proximidade do autor, cujo avô era brasileiro, com o país parecem ter sido suficientes para deixar Lobo Antunes à vontade.
Histórias de família, referências literárias, amizades e literatura. Os temas abordados foram muitos. A platéia quase chegou a atrapalhar, com tantos aplausos. Apesar do sucesso alcançado por Lobo Antunes em Portugal e no exterior, com 21 livros publicados, o autor não é muito conhecido pelo público brasileiro. Espero que isso mude agora.
Ross, crítico de música erudita na revista New Yorker, falou de seu livro “O resto é ruído”. Lembrou de uma época em que os grandes concertos eram acontecimentos. Em que o público reagia ao que via e ouvia, tomava partido, tinha opinião. Havia tumulto. Os compositores eram celebridades. Tive saudade desse tempo que não conheci. Hoje, arrisca o próprio autor, as pessoas têm medo de se manifestar: “não queremos estar do lado errado da história”. Uma pena.
Sophie e Gregoire, na primeira aparição pública conjunta, falaram do trabalho dela. Sophie, após receber um e-mail de Gregoire rompendo o relacionamento que mantinham, pediu a 107 mulheres que analisassem a mensagem. Com esse material, construiu seu trabalho, intitulado “Prenez soin de vous”, frase de despedida utilizada pelo ex-namorado.
Apesar do visível nervosismo de ambos, o debate rendeu bons momentos. O suficiente para se conhecer melhor o trabalho de Sophie, difícil de classificar. (Por aqui, ela foi apresentada como sendo uma “artista conceitual”, seja lá o que isso signifique.) Mas muito pouco se falou da obra de Gregoire, escritor francês de origem argelina, que, certamente, merecia atenção.
Anne Enright e James Salter, com a mediação de Liz Calder, presidente da FLIP, falaram de seus respectivos trabalhos. Salter, escritor americano, substituiu Tobias Wolff, cujo trabalho, aparentemente, apresenta mais pontos de contato com Enright, escritora irlandesa, vencedora do Booker Prize de 2007 com o livro “O Encontro”. Com isso, a unidade da mesa acabou se perdendo. Não houve grande interação, mas sim a apresentação do trabalho de um e de outro.
Gay Talese, mestre do jornalismo literário americano, sempre impecável, foi o próximo a subir ao palco. Quem chegou a Paraty já na quarta-feira, certamente teve a oportunidade de vê-lo caminhando pela cidade, sempre de terno e chapéu. Coube a Mario Sergio Conti, com muita sutileza, conduzir a conversa. Talese se estendeu nas respostas, caprichando nos detalhes. Consultou o relógio a cada nova pergunta, controlando ele mesmo a duração da entrevista. Falou do seu bastante controvertido método de trabalho, da sua infância, dos livros publicados e do livro que está desenvolvendo agora, onde analisa seu próprio casamento.
Para encerrar a noite, Humberto Werneck recebeu o escritor português Lobo Antunes. Foi um sucesso. A empatia logo estabelecida entre entrevistador e entrevistado e a proximidade do autor, cujo avô era brasileiro, com o país parecem ter sido suficientes para deixar Lobo Antunes à vontade.
Histórias de família, referências literárias, amizades e literatura. Os temas abordados foram muitos. A platéia quase chegou a atrapalhar, com tantos aplausos. Apesar do sucesso alcançado por Lobo Antunes em Portugal e no exterior, com 21 livros publicados, o autor não é muito conhecido pelo público brasileiro. Espero que isso mude agora.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
FLIP 2009
Sol. Estrada livre. Mar azul. Amigos. Assim começa a FLIP, nesta primeira quarta-feira de julho. Paraty ainda está tranquila. Sofre os últimos ajustes para a festa, entre areia, pedras e um batalhão de pessoas envolvidas na organização e cobertura do evento. Até sexta-feira, esses personagens irão desaparecer - um a um - em meio à horda do público. Mas, hoje, a cidade é deles.
Senti falta das bandeirinhas do ano passado, lembranças das festas de junho. Ou esse ano não houve festa junina em Paraty ou alguém teve a péssima ideia de apagar seus vestígios. O jeito é eu me contentar com os balões pendurados em frente à tenda da Flipinha.
Ainda estou tentando reconhecer as ruas do ano passado e encontrar os vãos certos para pisar entre as pedras do calçamento.
Tomara que não chova! Chuva só combina com poesia: "Chove chuva choverando / Que a cidade do meu bem / Está-se toda se lavando." (Oswald de Andrade). Não combina com festa. Nem mesmo literária...
Senti falta das bandeirinhas do ano passado, lembranças das festas de junho. Ou esse ano não houve festa junina em Paraty ou alguém teve a péssima ideia de apagar seus vestígios. O jeito é eu me contentar com os balões pendurados em frente à tenda da Flipinha.
Ainda estou tentando reconhecer as ruas do ano passado e encontrar os vãos certos para pisar entre as pedras do calçamento.
Tomara que não chova! Chuva só combina com poesia: "Chove chuva choverando / Que a cidade do meu bem / Está-se toda se lavando." (Oswald de Andrade). Não combina com festa. Nem mesmo literária...
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Nós, os afortunados
"Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos..."
[Trecho de “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, pág. 21, Editora Companhia das Letras, São Paulo:2007]
[Trecho de “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, pág. 21, Editora Companhia das Letras, São Paulo:2007]
terça-feira, 9 de junho de 2009
Viver sem tempos mortos
Quero meu duplo
Simone ou Fernanda? Difícil dizer o que move a peça, se a personagem ou a atriz que a personifica.
Quero meu duplo
Durante 60 minutos são elas que dão as cartas, sentadas numa cadeira, num palco vazio, despejando palavras, contando histórias, narrando uma vida. Admiro a coragem de ambas. Ela me comove.
Quero meu duplo
Ao final da peça, as luzes se apagam e o teatro deságua em aplausos. Em algum instante, na escuridão e no barulho estrepitoso, Simone cederá lugar à Fernanda. Eu aguardo, ansiosa. E é esta quem recupera o fôlego para agradecer a manifestação emocionada e vibrante do público, já sob as luzes acesas.
Quero meu duplo
Como será essa sensação? Quedar sentada no escuro, sozinha e exposta em praça pública ao mesmo tempo, após uma hora de concentração, nervosismo, esforço. Uma hora de tensão que consome o corpo, retesa os músculos, obriga a respiração a se ajustar às frases, o corpo a se conter.
Quero meu duplo
Saber-se o centro das atenções, a principal peça do tabuleiro. Comandar uma multidão de pessoas, conduzi-las por caminhos que só você conhece, jogar com elas, invadi-las. Abduzi-las. E, no final, ali, calada, protegida pela ausência de luz, sentir pela vibração do chão que alcançou seu objetivo.
Quero meu duplo
Durante aqueles ínfimos segundos, debaixo de escuridão e dos aplausos, o rosto invisível, a respiração ainda acelerada, o corpo aquecido pelo esforço, os músculos começando a desfalecer, aliviados, o que respira Fernanda? Que ar invade seus pulmões?
Ficha Técnica: "Viver sem tempos mortos", peça inspirada em correspondências de Simone de Beauvoir para Jean-Paul Sartre, com Fernanda Montenegro e direção de Felipe Hirsh. Em exibição no SESC Consolação.
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